Milton Dallari
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) deste ano reforçou a tendência de que o crescimento da população brasileira está com os dias contados. Nos últimos 20 anos, o número de filhos caiu de 3,5 para 2 por família. O estudo também indica que nas próximas duas décadas a população brasileira deve se aproximar dos 225 milhões de habitantes. Nesse momento, a curva do crescimento vai se estabilizar e então começaremos a assistir a um declínio nesse número, repetindo o fenômeno que já ocorre em alguns países da Europa e que traz preocupações a governos e empresas.
Em toda a história do Brasil, nunca houve preocupação com esse tema. Pelo contrário. Antigamente, as pessoas diziam que era necessário fazer alguma coisa para diminuir o número de filhos por família, sobretudo nas regiões mais pobres. Ocorre que a sociedade passou por mudanças de comportamento jamais vistas nos últimos 30 anos.
Em todos os níveis sociais, as mulheres se emanciparam e passaram a ocupar um espaço cada vez maior no mercado de trabalho. Mais do que nunca, a profissão passou a ser valorizada e os planos de matrimônio e maternidade começaram a ser adiados para o futuro. Novas gerações de medicamentos anticoncepcionais transformaram a gravidez indesejada de outros tempos em acidente ou descuido do casal. E novas técnicas de fertilização permitem que uma mulher se planeje para dar à luz até os 40 anos.
O alto custo de vida também faz com que muitas famílias reavaliem a possibilidade de ter menos filhos. Gastos com escola, roupas, presentes e tecnologia provocam calafrios em quem tem de suar a camisa para tentar oferecer o que há de melhor a seus descendentes. Uma situação bem diferente de tempos atrás, quando parecia ser bem mais fácil colocar os filhos no mundo e deixar que se virassem sozinhos.
Essa queda na taxa de natalidade vai atingir em cheio as próximas gerações.
E o envelhecimento da população brasileira terá impacto negativo não só para os empresários, como também para os governos federal, estaduais e municipais, que deixarão de arrecadar recursos com a diminuição de trabalhadores em idade economicamente ativa. Sem essas contribuições, a Previdência Social terá de buscar novas fórmulas para financiar as aposentadorias de quem deixou o mercado de trabalho.
Em alguns países, os governos estimulam casais a ter filhos para evitar um colapso do sistema. Na Rússia, o problema é gravíssimo. Imagine um país duas vezes maior que o Brasil, com população de 143 milhões de habitantes, e taxas de mortalidade muito superiores aos índices de natalidade. No ano passado, morreram 2,2 milhões de pessoas contra aproximadamente 1,5 milhão de nascimentos. De acordo com relatórios da Organização das Nações Unidas, a população do país pode diminuir em um terço até 2050, o que significaria 45 milhões de pessoas a menos.
No meio dessa crise, alguns governantes apelam para idéias curiosas para elevar as taxas de natalidade. Nos últimos três anos, os casais da região de Ulyanovsk, a 900 quilômetros de Moscou, podem desfrutar do ?Dia da.
Procriação?, comemorado em 12 de setembro. Exatos nove meses depois, no dia 12 de junho, há outra festa, desta vez para celebrar os nascimentos, com a distribuição de prêmios que vão desde brindes até cheques no valor de R$ 20 mil. Resultado: a população da cidade passou a crescer a taxas de 4,5% desde que essa ?medida? foi instituída pelo governo local.
O Brasil não precisa de mais um feriado em seu calendário. Disso tenho certeza. Mas deve olhar para o exemplo russo.
Milton Dallari é consultor empresarial, engenheiro, advogado e presidente da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp.