Ivan Schmidt
?Em nenhum lugar se é mais estrangeiro do que na França.? A frase irretorquível está no livro da psicanalista Julia Kristeva, lançado em 1988 e traduzido no Brasil pela Rocco, RJ, em 1994. Nascida na Bulgária e emigrada para a França em 1966, onde vive e trabalha até hoje, o livro em questão – Estrangeiros para nós mesmos – não poderia ter recebido um título mais adequado.
Leitura difícil e, não raro, enfadonha, na verdade enfeixa um relato autorizado pela experiência de quem viveu por dentro a saga do imigrante e por isso sabe do que está falando. Kristeva ajuda o observador, mesmo distanciado no tempo, ou até por esse aspecto, a compreender melhor a explosão da violência nas comunidades habitadas por imigrantes muçulmanos – filhos ou netos dos que vieram antes -, em bairros periféricos de Paris e outras cidades da França.
Quando escreveu, há exatos 17 anos, a psicanalista que mais tarde faria brilhantes estudos no campo da semiologia alinhou convicções adquiridas em pessoa ou recolhidas do contato freqüente com a realidade dos estrangeiros repelidos por uma sociedade impenetrável. Escreveu ela: ?Sem ter a tolerância dos protestantes anglo-saxões, nem a tendência à despreocupação dos latinos do sul, ou a curiosidade tão excludente quanto assimiladora dos alemães ou dos eslavos, os franceses opõem ao estrangeiro um tecido social compacto e de um orgulho nacional imbatível?.
Portanto, já apontava, com a notável perspicácia do pesquisador atento aos fatos, a evolução da problemática socioeconômica que afligiria os imigrantes, entretanto, num horizonte que nem ela ou quem quer que seja teriam o dom de fixar. Mas, que aí está, cerca de quatro décadas depois da romântica revolução de 1968.
Não só o tipo de vida que aguardava os imigrantes islâmicos das antigas colônias africanas e seus descendentes, mas as conseqüências tardias da glacialidade com que os franceses sempre trataram os metecos (estrangeiros para os gregos antigos), foram antevistos pela estudiosa capaz, inclusive, de fazer uma descrição meticulosa do estado de espírito do francês médio: ?Uma civilização consolidada pelo absolutismo monárquico, pela autonomia galicana e pelo centralismo republicano. Mesmo quando é legal e administrativamente aceito, nem por isso o estrangeiro é admitido nas famílias?.
É admirável, avaliada tantos anos depois, a visão pragmática de Kristeva, também ela assolada pelo sentimento de perdas absolutas: ?Quando os outros lhe fazem saber que você não conta porque os seus pais não contam, que invisíveis eles não existem, você se sente bruscamente órfão e, às vezes, responsável por sê-lo?, adverte sem desconhecer que é parte integrante do ethos do estrangeiro valorizar os benefícios da civilização na qual pretende obter guarida. Convencido do desejo irrealizável, ao estrangeiro pesa o estigma de encolher-se ?no seu isolamento, humilhado e ofendido, consciente da terrível desvantagem de jamais poder ser… um francês?.
A rebeldia dos jovens da terceira geração de imigrantes do Magreb imposta pela segregação e falta de oportunidades para o desenvolvimento pessoal, mesmo em cenário e com atores diferentes, guarda algum nexo com a greve geral de 1968, aquela em que os estudantes transformaram as pedras das ruas do Quartier Latin em barricadas contra a polícia de De Gaulle. Lembro o importante livro A contracultura, de Theodore Roszak (Vozes, RJ, 1972), a fim de estabelecer um vínculo possível com o que sucede hoje: ?Se os estudantes rebeldes marcham aos milhares para as barricadas, seus pais cautelosos marcham às dezenas de milhares em defesa do status quo e votam aos milhões pela manutenção da elite gerencial que o velho general recrutou na Ecole Polytechnique com o intuito de controlar a nova prosperidade francesa?.
Elite gerencial hoje exercida pelos mesmos cabeludos que se aglomeravam nos pátios da Sorbonne e escadarias do Teatro Nacional para aclamar os líderes e ecoar palavras de ordem, como a etérea ?a imaginação está tomando o poder?. Os revolucionários de então, uma década depois, haviam trocado o furor bélico por postos de comando nos ministérios, bancos, multinacionais, comunicação ou no fertilíssimo veio da informática que então se abria, logo convencidos, como seus pais, ?que a essência da revolução consiste num envelope de pagamento mais polpudo?.
Aos filhos e netos dos imigrantes, porém, não sobrou sequer uma migalha desse bolo, a não ser o isolamento. A explosão de agora é fruto temporão do senhorio distante e autoritário que a nação criadora dos direitos humanos, vejam a contradição, jamais deixou de exercer.
Ivan Schmidt é jornalista.