?Impressiona o rebaixamento do nível de qualidade dos políticos. Há menos de meio século o Congresso exibia perfis de grandeza que expressavam consistente debate político e profunda noção de missão institucional. A palavra era densa, sábia, inteligente, contundente e fluía aos borbotões no verbo de Vieira de Mello, Brito Velho, Carlos Lacerda, Aliomar Baleeiro, Adauto Lúcio Cardoso, Nelson Carneiro, Paulo Brossard, Tancredo Neves, Elói Dutra, Djalma Marinho e outros tantos, alguns até mais recentes, cuja história é pouco conhecida no próprio ambiente parlamentar.?
O autor desse diagnóstico é o jornalista, consultor político e professor titular da USP Gaudêncio Torquato. Observador ativo da vida política nacional, textualizou no artigo ?O Brasil predador? (O Estado de S.Paulo, 4/9/2005), um alerta à sociedade e uma intransigente defesa da instituição parlamentar. O fato é que o discurso político parece banido do cotidiano dos políticos. A ausência dos debates sobre os grandes problemas nacionais, nas casas legislativas, gerou no campo das idéias a esterilidade triunfante. Não se formulam caminhos alternativos, não emergem propostas para mudar com seriedade e competência. Prevalece o dia-a-dia que é consumido no fortalecimento dos projetos personalistas e patrimonialistas. Muitos não entendem o que acontece ao seu redor, por carência de formação. É preciso deixar de elogiar e cultivar a ignorância. Política não é profissão, é missão. Desde o velho Aristóteles, o seu sentido é servir ao bem comum.
Quando Gaudêncio Torquato alerta o Congresso Nacional e a sociedade para o rebaixamento de qualidade dos políticos, objetiva recolocar numa madura discussão a necessidade de se evitar uma crise de credibilidade que está à vista de quem tem olhos para enxergar. Não o faz por saudosismo, mas por constatar o divórcio que se amplia entre representantes e representados. O Brasil hoje vive uma situação de asfixia econômica, fruto do brutal endividamento externo e interno. A maioria dos grandes núcleos urbanos e as médias cidades estão literalmente degradados. A renda nacional escandalosamente concentrada, metade da população na miséria e um nível educacional desajustado e atrasado.
Felizmente nem tudo está perdido. Existe uma representação política minoritária dotada de competência, seriedade e vocação aristotélica de buscar alternativas para a edificação de uma república democrática com desenvolvimento e justiça social. Infelizmente a fragilidade partidária, aliada aos aventureiros da política, a cada eleição reduz essa qualificada representação. Outros retiram-se desmotivados. Enquanto os patrimonialistas do baixo clero se multiplicam como coelhos.
Aí está a origem dos ?mensalões?, ?mensalinhos? ou outras ?tenebrosas transações?, envolvendo atores políticos. É preciso extirpar essa metástase cancerígena da vida nacional. E ela não está circunscrita a Brasília, mas se estende pelos estados e municípios, em muitos casos.
Na raiz está a ausência dos governos em atender as carências das populações marginalizadas. Com isso, muitos parlamentares federais, estaduais e municipais transformam-se em assistencialistas, com a criação de núcleos sociais de atendimento nas periferias das grandes cidades. A compra indireta do voto dessa clientela passa a ser fato normal. Oferecem médicos, dentistas, treinamento profissional, nesses centros sociais eleitorais. Ambulâncias, ônibus para transporte escolar, cadeiras de rodas, dentaduras são colocados à disposição dessa população pobre em troca do voto. São os ?currais eleitorais urbanos?, com enorme capilaridade. É óbvio que o custo invisível dessa estrutura é bancado por ?recursos não contabilizados?, como definiu o professor.
Somam-se os eleitos egressos desse segmento àqueles que investem milhões na obtenção do mandato para ingressar no mundo da política de negócios, onde o patrimonialismo é o objetivo. Acrescentem-se as várias seitas com os seus porta-vozes e os programas popularescos do rádio e da televisão fazendo parlamentares com expressivas votações. Inexistindo partidos políticos doutrinários, o oportunismo e o carreirismo passam a ser a matéria-prima da representação popular.
Voto não é mercadoria, é um instrumento de cidadania. Faça dele uma arma para elevar o nível de qualidade da representação política. É preciso prestigiar os parlamentares éticos e decentes que têm assento no Congresso Nacional e nos legislativos estaduais e municipais. Em contrapartida, o eleitor precisa ser impiedoso com os políticos de negócios, adeptos do ?é dando que se recebe?, banindo-os da vida pública. E isso é possível fazendo-se do voto a arma letal para mudar essa realidade que nos enche de vergonha e tristeza.
Hélio Duque é ex-deputado federal.