Ivan Schmidt

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Podem achar que é disparate (faz tempo que não escrevo a palavra), mas nem isso me fará cavoucar razões para justificar a tese a seguir. Os que prosseguirem a leitura até a última linha, além das congratulações de praxe, talvez encontrem alguma coerência (essa tenho escrito muitas vezes) nesse pobre emaranhado.

Ao analisar as coisas, mesmo de modo superficial, a nítida impressão é que as constantes escapadas do governador Roberto Requião, como a última a Nova York, têm sido programadas com o claro objetivo de se distanciar o mais possível do melancólico deserto de homens e idéias que é seu governo, na versão atualizada da expressão cunhada por Oswaldo Aranha, espécie de primeiro-ministro de Getúlio Vargas, já clamando contra a falta de projetos relevantes em benefício da população. No caso paranaense, a insistência em projetos repetitivos é apenas um pormenor impertinente.

No idioma espanhol, segundo o dicionário Señas, da Universidade Alcalá de Henares (Martins Fontes, SP, 2002), o termo ?escapada? também define o resultado ou a ação de retirar-se alguém a algum lugar para se divertir, sobretudo, em referência aos que vão ao campo ou à praia nos finais de semana ou feriados. A recente curtição na Big Apple, ensejada por uma conferência a maganões locais, satisfez com inegável proficiência e altíssima dose de charme a necessidade intermitente de respirar uma poeira mais civilizada, trocando o Cangüiri pelo Central Park, que ninguém é de ferro.

Voltando à realidade sem fantasias, após quase cinco anos, constata-se que o governador sequer teve o cuidado de oxigenar as emperradas engrenagens da máquina administrativa transformada em herdade familiar, a rigor, loteada pelos mesmos personagens ali plantados desde o primeiro mandato.

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Diga-se em defesa da verdade que o governador carrega sobre os ombros, mercê de uma idiossincrasia que conserva exígua distância entre o tratamento afetuoso e as explosões mais irascíveis, mesmo que não seja esse o seu desejo, acaba por atemorizar e afugentar quadros técnicos de altíssimo nível, perfeitamente aptos a integrar uma equipe de executivos compatível com a pujança econômica e social de um estado que é reputado como síntese perfeita da expressão nacional, como é o Paraná.

Do conjunto de secretários estaduais, a primeira impressão do desprestígio é a população desconhecer o nome da maioria. Adivinhar, assim, quais são os projetos relevantes ora desenvolvidos nesta ou naquela pasta seria uma exigência similar à desenvoltura intelectual requerida dos sorteados a responder perguntas nos programas de Sílvio Santos.

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Mesmo sobre auxiliares de fácil identificação, incluindo os parentes consangüíneos, muito pouco se pode adicionar ao quesito competência, a menos que os juízos de valor emitidos pelo grande irmão sejam aceitos como certificação indiscutível de que, em suas respectivas funções, eles são os melhores do Brasil. Os que manifestam dúvidas plenamente fundadas sobre a caudalosa bravataria são contados como perdedores e adversários ressentidos, neoliberais ou, na melhor das hipóteses, idiotas rematados.

Outra faceta que esmerilha sobremaneira o primeiro ano do terceiro mandato de Roberto Requião é observada na atuação da bancada governista na Assembléia Legislativa que, por uma dessas aquisições culturais típicas do processo de civilização ocorrido abaixo da linha do equador, tem a subida honra de fazer-se liderar pelo insigne deputado Luiz Claudio Romanelli.

Como acontece no plano federal, trata-se de uma pletora de portadores de variado matiz político, desde que se tome a precaução de evitar que o próprio deputado seja encarregado de discorrer sobre a coloração ideológica, para a maior parte um problema mais desafiante que o teorema de Pitágoras.

Ninguém ignora qual é a ambrosia que adoça a bico dos membros das casas legislativas de modo geral. Assim como ninguém pode suprimi-los do mérito da invenção da política de resultados bem antes que os líderes do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo reivindicassem direitos autorais sobre a criatura. Não é diferente no Paraná, até pela notória percepção que um político dado ao monólogo, fonte de opiniões inerrantes e não raro autoritárias, dificilmente teria o dom de dispor duma bancada numericamente expressiva e cordata como a atual.

O amigo ficou frustrado com o que leu. Se servir de lenitivo, prescrevo uma imersão no Rio Hudson.

Ivan Schmidt é jornalista.