Realidade macunaímica

Há quatro décadas, no livro Consciência e Realidade Nacional o filósofo Álvaro Vieira Pinto definia com precisão o grande conflito do pensamento brasileiro, se expressando na visão antagônica da realidade e dos caminhos do desenvolvimento: a consciência ingênua e a consciência crítica.

A consciência ingênua se expressaria na visão tosca onde Macunaíma, o herói sem caráter, e Jeca Tatu, o caipira preguiçoso, seriam expressão do cotidiano do brasileiro. Já a consciência crítica é inquieta e procura valorizar um projeto nacional de desenvolvimento que não seja excludente e buscando construir idéias e conhecimento.

Decorrido quase meio século, se vivo fosse Vieira Pinto tristemente constataria que a consciência crítica foi nocauteada, tornando-se vitoriosa a consciência ingênua. Recentemente o editor-chefe do Jornal Nacional, o mais assistido da televisão brasileira, definiu que o telespectador médio tem enorme dificuldade para entender notícias complexas. Daí designá-lo com o nome de Homer Simpson, obtuso personagem da série norte-americana Os Simpsons. Sua essência é ser preguiçoso, dotado de raciocínio lento e quase divorciado da realidade.

Por mais chocante que seja essa radiografia do telespectador médio brasileiro, ela não é irreal. É reflexo da realidade da nossa população. É preciso, com tristeza, reconhecer que somos um país de analfabetos. Apenas 25% dos brasileiros na faixa etária dos 15 aos 64 anos têm domínio pleno da leitura. Já 75% da nossa população não consegue ler nem escrever satisfatoriamente. São classificados na categoria de analfabetos funcionais. Em números objetivos, dos 170 milhões de habitantes, o Brasil tem 130 milhões que vivem na ignorância real e relativa.

Foi a Unesco, há três décadas, que desenvolveu o conceito de analfabetismo funcional. Ele se expressa naquelas pessoas que não conseguem fazer uso da leitura e da escrita para se inserir na plena cidadania e ter clara compreensão da realidade. No Brasil, o Instituto Montenegro, agregado ao Ibope, vem desde 2001 fazendo bienalmente pesquisas avaliadoras da nossa situação. A pesquisa abrange todas as regiões brasileiras e compreende quatro grupos classificatórios. E o mais dramático é que dos 40 milhões que são alfabetizados na máxima plenitude, são poucos os que fazem da leitura um dos prazeres da vida.

O mapa dessa verdadeira exclusão social e cultural retrata quatro grupos, englobando as classes A, B, C, D e F, e tem essa composição:

Analfabeto Absoluto representa 7% da população. Não consegue realizar tarefas simples que envolvam palavras ou frases. Não sabe ler nem escrever.

Alfabetizado – nível rudimentar consegue ler títulos ou frases e capta poucas informações de um texto de leitura. Representam 30% da população.

Alfabetizado – nível básico consegue ler um texto curto, localizando uma informação determinada, chegando apenas à conclusões simples. A maior parte tem entre 5 e 7 anos de estudo. Representa 38% da população.

Alfabetizado – nível pleno representa 25% dos brasileiros. Consegue ler livros e outros trabalhos mais longos. Sabe localizar e relacionar mais de uma informação. Consegue fazer interpretações, percebendo informações complexas e chegar a conclusões e análises dos textos lidos.

A raiz dessa brutal realidade está na própria formação histórica da nacionalidade, onde a fragilidade moral prevaleceu por séculos. A educação nunca foi uma prioridade fundamental na nossa formação. A marginalização da educação é a fonte geradora dessa triste e dramática realidade. Cultivar a ignorância atende a demanda de muitos governantes. Quem vive nas trevas não reivindica, não exige os seus direitos e não gera problemas para os governantes do dia. Aliado ao fato de que muitos administradores públicos se originam nessa camada iletrada da população e são integralmente despreparados para o ato de governar. Isso responde pela falta de ética na condução das coisas públicas. Aí está um dos fundamentos da cultura da prevaricação tão presente na vida pública nacional.

O povo brasileiro é vítima dessa conjuntura de culto à ignorância. Ele é vítima de uma cultura da esperteza, onde o que vale é levar vantagem em tudo, onde o compromisso com o interesse público é relativo. O povo brasileiro vive na periferia dos seus direitos fundamentais. É um espetáculo de horror, mas que serve aos desígnios de uma elite insensível.

Na política, o quadro não é diferente. Faço minhas as palavras do professor Fábio Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais: ?O nosso eleitorado popular, que é aquele junto ao qual as eleições se decidem, é tosco, porque é pobre, mal assistido, não tem educação, não tem condições de se inteirar dos assuntos políticos. É facilmente manipulável por marqueteiros?.

O analfabetismo funcional não é, portanto, um acidente de percurso. É fruto de uma realidade que atende a múltiplos interesses. Daí a sua perpetuação na sociedade brasileira. Uma vergonha inominável.

Hélio Duque é ex-deputado federal.

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