Há muitas formas de subdesenvolvimento. A debilidade ética é a pior delas. Nada é capaz de compensar o atraso moral de um país: nem o crescimento do PIB, nem as conquistas científicas e tecnológicas, nem as inúmeras vitórias nos torneios mundiais de futebol e nem mesmo os mais arrojados e criativos projetos sociais (que acabam sendo expressão mais de demagogia do que de vontade política de diminuição da pobreza). Não são os discursos inflamados e carregados de retórica política, mas a conduta irrepreensível de seus cidadãos e governantes que é capaz de sustentar a credibilidade de um país.
A crise ética que envolve o Brasil não é uma simples virose que vem e que passa. É, ao contrário, uma doença crônica que precisa ser tratada com intervenções drásticas e não apenas curativos ou pomadas (como sugeriu o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, ao propor simples repreensão aos envolvidos nos mais recentes e indecentes escândalos políticos deste País. Talvez estivesse ele antevendo a reversão da situação de investigador para a de investigado, numa tentativa de minimizar a própria pena).
A doença moral que atinge o Brasil não está restrita ao grupo de risco da classe política, mas é um sintoma coletivo de uma cultura que foi, paulatinamente, afrouxando o compromisso com o valor básico que sustenta a convivência humana: a honestidade. Parece até que, no Brasil, ser honesto é questão de opção pessoal, coisa de uns poucos excêntricos, quando deveria ser convicção profunda, atitude fundamental, conduta indiscutível, carregada desde o berço até a tumba. Não é questão de radicalismo ou fanatismo (pois o fanatismo é também imoral), mas de coerência e firmeza. Chega do jeitinho brasileiro, da preguiça moral, do jogo de cintura e de consciência. Esse maldito estigma (aplicado por justa causa) nos imprime a imagem de um país moralmente enfraquecido. Aqui se permite desde a falta de pontualidade (que não deixa de ser um critério na escala da moralidade – afinal, não ser pontual é uma falta de respeito aos outros) até a mais descarada usurpação dos recursos públicos, recolhidos à custa da miséria de muitos brasileiros.
Chega de fazer vistas grossas à debilidade moral deste País. Enquanto os germanos são reconhecidos por seu rigor, os japoneses por seu elevado padrão de qualidade e os britânicos por sua pontualidade nacional, nós somos reconhecidos mundialmente pelo nosso ?jeitinho?. Trocando em miúdos, trata-se da nossa capacidade monumental de burlar as normas que nós mesmos criamos (seja jogando lixo pela janela do carro, seja levando dinheiro público nas roupas de baixo; seja no mensalão ou no mensalinho; seja no governo das oligarquias ou no governo do líder dos trabalhadores).
Nós já começamos mal: os colonizadores de quem somos prole vieram para roubar o pau-brasil, violentaram as índias, levaram o ouro, escravizaram os negros. Maldita tradição imoral, frouxa, indecente e doentia. Desde o berço, nossa nação foi moralmente mal alimentada e por isso cresceu raquítica.
O raquitismo ético deste País precisa ser combatido. E a saída está em duas ações inadiáveis: primeiro, na imobilização política dos cidadãos deformados (porque o raquitismo ético deixa seqüelas irreparáveis). Em segundo lugar, na educação dos novos cidadãos ainda não infectados pela terrível moléstia. A primeira ação depende do bom uso do instrumento do voto. A segunda está nas mãos da família e da escola. É preciso uma educação moral para o Brasil (não à moda da militarizada, pedante e cafona Educação Moral e Cívica), mas uma educação genuína que imprima valores e que minimize o relativismo moral do tupo-pode e do tudo-é-bom. É preciso uma educação ética: não ao estilo da ética do PT (panfletária, demagógica e hipócrita), mas da ética que não precisa ser adjetivada.
Paulo Eduardo de Oliveira é filósofo, escritor e conferencista. E-mail: ppauloedu@yahoo.com.br