Raízes da violência

Era o título de uma charge, publicada no jornal Folha de S.Paulo, na edição de 11/1/2007. O seu autor Angeli mostrava um retrato sem retoque da realidade brasileira. Na sua genial criação, aparece um casal de milionários no amplo jardim da sua mansão, contemplando com admiração uma grande e centenária árvore que ocupava enorme espaço.

O diálogo é curto e direto:

– Que linda! Você que plantou?

– Não! Meu tataravô.

O chargista na seqüência da sua notável criação mostra que a sólida e bem adubada árvore têm uma raiz profunda e é alimentada e fertilizada pela concentração de renda, desigualdade social, salários baixos, miséria, desemprego, corrupção e intolerância. É uma aula magna de sociologia e economia, com objetividade e inteligência, ausentes hoje no debate nacional, quando se fala ou se teoriza sobre a violência urbana.

Em uma simples charge, Angeli retratou as raízes históricas, ao longo de gerações do Brasil injusto construído em cima de uma realidade de insensibilidade social que penetrou forte e fundo na vida cotidiana da elite nacional. O preço que está sendo cobrado no presente, sobremaneira, nos grandes núcleos urbanos, é de uma violência que remete a uma quase guerra civil não declarada. O medo passou a freqüentar o dia-a-dia de enormes parcelas da população brasileira.

A marginalidade social é matriz dessa violência que, em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, fazem do pânico diário um inferno na vida dos seus habitantes. E que vem se alastrando por todo o País. Imaginar que a sua erradicação será possível apenas pela repressão do Estado, pelo seu poder de polícia, é um sonho de uma noite de verão. As causas são mais profundas e têm um enraizamento que precisa ser atacado na sua origem. Não existe alternativa no curto prazo. Somente com políticas públicas de médio e longo prazo, onde a educação, a saúde, o emprego, a habitação, vale dizer, a dignidade do ser humano se transforme numa prioridade para toda a sociedade, essa realidade injusta começará a ser mudada.

O neopopulismo que emerge no Brasil e na América Latina tem sua matriz alimentadora no desespero social das camadas populares marginalizadas ao longo de gerações. Nas disputas políticas eleitorais, emergem os ?pais dos pobres? com soluções assistencialistas mágicas, para um problema que é grave e sério. Oferecem uma terapia de choque perenizando a miséria. Ao invés de dar o anzol que ensinará a pescar, oferecem o peixe.

A charge do Angeli remeteu-me a uma lembrança de um fato ocorrido na Venezuela, há alguns anos. Em Caracas, convidado para jantar na residência de um empresário do ramo petrolífero, a certa altura o anfitrião declara que os alimentos que degustávamos foram todos comprados naquela manhã em Miami. Mandara o seu jatinho na madrugada aos EUA, para transportar aquelas iguarias.

O deslumbramento daquele novo rico, integrante da elite caraquenha, era um padrão de comportamento absolutamente normal. Ao longo de décadas, os governos de Rafael Caldera, da Democracia Cristã, e Carlos Andrés Peres, da Social Democracia, mesmo com a colossal riqueza gerada pelo petróleo, agravaram a questão social e não modernizaram o país. Deu no que deu: o neopopulismo militarista e autoritário de Hugo Chávez.

A marca registrada do neopopulismo latino-americano e brasileiro é expressado no governante que exerce o poder através de uma relação direta entre ele e a massa popular, dispensando qualquer intermediação partidária ou até institucional. Sempre numa visão autoritária. No passado, predominavam entre os populistas tradicionais uma visão ideológica de direita. No presente, os neopopulistas vestem uma roupagem ideológica dita de esquerda, sem conteúdo.

O jogo pendular ideológico, no passado e no presente, é apenas componente adjetivo do cenário do poder. Não se busca implantar reformas e projetos de desenvolvimento econômico e social, que se reflita na integração das populações marginalizadas. Enquanto isso, o mundo continua girando, e a lusitana rodando. E as árvores plantadas pelo tataravô permanecem intocadas e sendo adubadas na injustiça social.

Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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