Questão de saúde

Uma súbita preocupação passou a fazer parte das cogitações em torno da virtual candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A ministra está iniciando o tratamento de um câncer linfático, cuja precocidade detectada em exame de rotina felizmente facultou aos médicos que a assistem a conclusão de que o mal será eliminado com sucesso. Todavia, os assessores mais próximos do presidente e, por extensão, os líderes dos partidos da aliança governista e a própria opinião pública não têm como evitar um debate judicioso da questão.

O presidente Lula incluiu a ministra Dilma Rousseff na comitiva que o acompanhou na viagem da última segunda-feira a Manaus, onde ela apresentou um balanço geral das realizações do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), além de se reunir com prefeitos, secretários estaduais e representantes de grupos empresariais envolvidos na execução de obras previstas no programa. O governo quer passar a impressão de que não há nenhum problema grave com a ministra e provável candidata da base à presidência da República em 2010. Lula arriscou-se a afiançar que “a ministra não tem mais nada, segundo os médicos, e agora precisa fazer o tratamento para que não volte mais a ter a doença”, num esforço bem-intencionado de diagnosticar o estado de saúde da principal colaborada de sua administração.

Mesmo faltando alguns meses para o início da campanha, já se aventa a hipótese da antecipação da saída da ministra do governo, com a finalidade de iniciar mais cedo a arregimentação partidária com vistas à consolidação da candidatura, mesmo porque o presidente Lula declara a todo instante que, a seu juízo, a candidatura de Dilma está definida, embora ainda dependa da manifestação oficial do Partido dos Trabalhadores e das demais agremiações políticas que integram a aliança governista. “Ela é a minha candidata, mas eu não sou o partido”, argumenta Luiz Inácio.

Para alguns setores da direção nacional do PT que ainda não falam abertamente do apoio à candidatura da ministra, mas, por outro lado, não fazem nenhuma objeção concreta à viabilização da expressa vontade demonstrada pelo presidente de honra do partido, torna-se importante discutir desde já a escolha do candidato à vice-presidência na chapa virtualmente encabeçada pela ministra Dilma Rousseff. Nos círculos dirigentes do partido se discute a convergência para um candidato a vice-presidente que além de empilhar no mesmo vagão as peculiaridades regionais, seja detentor de comprovada experiência política e administrativa. Poucos admitem, no entanto, que essa discussão tenha sido oportunizada pela necessidade de inesperada substituição do titular.

Aliás, a discussão sobre o companheiro de chapa da ministra não é recente e todos sabem do interesse do PMDB, maior partido da base, pelo posto. Lula já se declarou simpático à indicação do governador fluminense, Sergio Cabral Filho, mesmo sabendo que o ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional), aspirante à vaga aberta de vice-rei da Bahia, já se ofereceu. O problema espinhoso será administrar a vocação fisiológica do referido partido, cujos diretórios regionais de São Paulo e Rio Grande do Sul, especialmente, dão a entender por algumas reações bem claras que sua preferência marcha na direção da aliança com a candidatura do tucano José Serra. Nesse caso, o presidente da executiva nacional e da Câmara, deputado Michel Temer (SP), poderia repetir a composição de 2002 quando a deputada Rita Camata (ES) foi indicada para ser a vice do mesmo Serra.

Há igualmente alguma inquietação de parte do PSB, do deputado Ciro Gomes (CE), que aparece bem cotado em todas as pesquisas de intenções de voto para a presidência. Quando o cenário apresenta o governador Aécio Neves como cabeça da chapa tucana, Ciro avança para a primeira colocação. Por esse motivo o partido sente-se confiante para levar à cúpula petista suas dúvidas quanto à capacidade de Dilma polarizar a disputa com o atual governador de São Paulo. A chapa vai esquentar.

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