Vai demorar muito tempo até que o País consiga quitar inteiramente a dívida de gratidão contraída com o senador José Sarney (PMDB-AP), que em vez de anunciar a merecida aposentadoria depois de mais cinco décadas de serviços inestimáveis prestados à conquista e consolidação da democracia brasileira, comunica aos embasbacados cidadãos de Pindorama, que mesmo “sem desejar” está pronto para assumir pela terceira vez a presidência do Senado e, por tabela, do Congresso Nacional.
O último empecilho a ser removido, e tal fato ocorreu já na semana passada, foi a desistência do colega de bancada, Garibaldi Alves Filho (RN), que ansiava convencer os pares quanto ao respaldo jurídico habilitando-o à disputa da reeleição para o cargo.
Garibaldi resistiu durante algumas semanas, enquanto o donatário das capitanias do Maranhão e Macapá empenhava a palavra para proclamar que não passava por seus planos imediatos voltar a exercer a presidência do Congresso, até que desígnios superiores o fizeram mudar de ideia. “Não desejei, não quis, não queria, esperava que não se chegasse a essa situação. Mas não pude deixar de atender as solicitações que recebi do partido, de muitos senadores de nossa casa, de todos os partidos e de alguns setores da sociedade”, discursou como moderno Catilina diante duma pequena corte de admiradores, a bancada do partido que, na pior das hipóteses, fez um esforço inaudito para demonstrar a altissonante honraria de ser participante ativa de um dos maiores acontecimentos políticos da primeira década do século.
Quando os biógrafos do longevo senador revirarem as páginas que discorrem sobre os fastos correspondentes às personalidades solares de nosso panteão, decerto haverão de comparar o desprendimento verdadeiramente estóico de José Sarney com o gesto altaneiro daquele que viria a ser nosso primeiro imperador, o sereníssimo infante dom Pedro de Alcântara, grão-prior do Crato: “Diga ao povo que fico”.
Aos críticos apressados e maledicentes de plantão, o ilustríssimo benefactor deixou claro que, num momento de tamanhas exigências seria altamente condenável pensar apenas no próprio bem-estar, “abdicando de prestar um serviço para o País”. Poucas vezes se viu nas crônicas recentes da República o oferecimento de uma vocação pessoal para o serviço abnegado com tal magnitude, disposta a enfrentar todos os sacrifícios conquanto possa responder, à altura, “as solicitações de todos os partidos e de alguns setores da sociedade”.
Tendo em vista a pertinácia com que o senador Tião Viana (PT-AC) tem lutado em defesa de sua candidatura à presidência da casa, em nome do desejável equilíbrio de forças partidárias no Congresso, o discurso do vice-rei do Maranhão a ele reservou o apelo para o cancelamento da pretensão. Na práxis política de Sarney, e dos inúmeros parlamentares que integram sua bancada pessoal, seria mais funcional e harmônico abiscoitar o cargo sem o desconforto ocasionado pela disputa dos votos. Homem acostumado a aglutinar em torno de si uma farândola de cordatos cooperadores, Sarney não deixou de despachar uma farpa na direção de Viana: “Muito melhor se tivéssemos uma candidatura de unidade”, embora, por elegância, tivesse evitado afirmar não ser este, necessariamente, o estofo da candidatura do senador petista.
A escolha dos presidentes da Câmara e do Senado deve ocorrer na segunda-feira, 2 de fevereiro. Ao PT, ao que parece, está reservada a missão pouco relevante de chancelar um acordo selado sem a sua participação, cujos termos foram acertados entre o Palácio do Planalto e os que dão a última palavra sobre as questões internas do PMDB, que nesse caso se arrogou o direito de reivindicar a prerrogativa de maior partido da base governista. Há quem diga e, provavelmente com razão, que o olho gordo dos condutores do partido-ônibus está voltado desde agora para os entendimentos em torno das eleições presidenciais de 2010. Alguém duvida?