Ivan Schmidt
A propósito da alaúza causada pela extemporânea proposta do presidente Hugo Chávez, ao iniciar o terceiro mandato, obtido democraticamente, diga-se de passagem, de conduzir a Venezuela ao ?socialismo do século XXI?, algo que nem mesmo o autor tem idéia do que vem a ser, em primeiro lugar, seria edificante recorrer a Leon Trotsky, com a necessária ressalva de que tempo e circunstâncias são inteiramente outros, embora sintamos a tentação de supor a existência de vasos comunicantes entre os fatos.
A lembrança é de Seymor Martin Lipset, no seu excelente livro de ensaios sobre sociologia política Consenso e conflito (Gradiva, Lisboa, 1992), ao citar que o revolucionário assassinado na Cidade do México ?profetizou que a tomada do poder leninista resultaria numa situação que a organização do partido tomaria o lugar do próprio partido, o comitê central tomaria o lugar da organização e, finalmente, o ditador tomaria o lugar do comitê central?.
Não é preciso dizer que se a assertiva chegasse ao conhecimento de Chávez a resposta é que sua visão política decorre da entranhada reverência ao libertador da América espanhola, Simon Bolívar, seu ídolo de todas as horas, e que o ideal a ser buscado pela revolução bolivariana é concluir a missão que o general deixou inacabada, ou seja, restaurar não apenas na Venezuela e países vizinhos, mas quiçá em toda a América Latina, a plena igualdade política, econômica e social.
Como o cenário do mundo sofreu radical transformação desde os tempos da Revolução Russa, olhando as coisas pelo reduzido prisma venezuelano pode-se dizer que Chávez, no momento em que desnuda o estofo de seu terceiro governo, o faz com a convicção de que etapas clássicas do processo político foram queimadas. Exemplo: a organização de um partido forte do ponto de vista orgânico e programático, para autenticar as decisões do chefe do governo.
Chávez se deu ao luxo de alçar a bandeira socialista, mesmo sem esclarecer a idéia, descartando o apoio de partido estruturado e, de certa forma, superposto ao aparelho de Estado. Ele teve seu segundo mandato referendado por um plebiscito e conseguiu a inédita façanha de eleger a Assembléia Nacional sem participantes da oposição. Dir-se-ia que seu principal ativo reside no respaldo unânime das classes populares, isto é, daqueles que Marx chamava proletários. Não é sem motivo que agora busca conseguir a aprovação do direito de ser candidato à reeleição quantas vezes desejar. E, para isso, decerto conta com a chancela antecipada de milhões de conterrâneos historicamente excluídos do bem-estar social.
No caso específico da Venezuela, como nos demais países do Terceiro Mundo, em especial nas antigas colônias africanas, a elite se deixou obcecar pelo progresso e tratou de industrializar o país a qualquer custo, vendo aí o caminho para a modernidade, embora na lição enfatizada pelo sociólogo francês Jacques Ellul, o elevado preço tenha sido a proletarização e o empobrecimento das massas. Na Venezuela, além da industrialização ou acima dela, melhor dizendo, o principal mecanismo de propulsão foi a riqueza propiciada pelo petróleo, carta exponencial na jogada chavista.
A revolução carimbada de socialista, mas sem definir (ainda) a que compartimento pertence, posto que instruída em parte pelo anúncio da nacionalização do complexo industrial do petróleo e dos sistemas de eletricidade e telefonia, entre outras atividades industriais de origem estrangeira presentes em território venezuelano, é um reflexo tardio da situação citada por Ellul, hoje multiplicada à enésima potência. A América Latina tem atualmente algumas dezenas de milhões de pessoas vivendo em condições de miséria absoluta.
A proletarização do Terceiro Mundo, em resumo, teve seu fator determinante na colonização e no imperialismo, dizia Jacques Ellul há vinte anos, chamando a atenção, entretanto, para uma situação ainda mais chocante: ?A partir de agora, e isso só se agravará, é a passagem ao socialismo (e que socialismo!), revisto e corrigido pelas aberrações das interpretações culturais locais?.
Certamente, Chávez também pretende queimar essa etapa…
Ivan Schmidt é jornalista.