Edir Macedo orou, orou, até conseguir entronizar a Igreja Universal no altar-mor do Palácio do Planalto. Ao pegar o aerolula para mais um tour internacional, o vice-presidente José Alencar assumiu as rédeas do poder, agora sob o teto de um tal de PMR (Partido Municipalista Renovador), cuja formação foi facilitada pelo trabalho de obreiros evangélicos que colheram nas igrejas 438 mil assinaturas para a criação da 28.ª sigla do multifacetado sistema partidário brasileiro. Se o neocrente Alencar pegar o Sucatão para uma voltinha pelo continente, o comunismo – sem nenhuma Intentona – entronizará o símbolo da foice e do martelo na mesa presidencial, eis que Aldo Rebelo, do PC do B, lídimo representante do partidão criado, no Brasil, em 1922, é o segundo homem na linha sucessória.
A distância que une os dois sucessores de Lula é tão estreita quanto a que une o Pólo Norte ao Pólo Sul. O primeiro teria um lastro de 6 milhões de fiéis, no Brasil e em 46 países, mais de 2 mil templos, uma bancada de 30 parlamentares e o respaldo de uma multinacional religiosa que fatura cerca de US$ 1 bilhão. O segundo se funda na história de 60 anos de clandestinidade e conta com uma base ainda pequena, formada por 60 mil militantes e bancada de 9 parlamentares, que defendem o centralismo democrático da utopia socialista. As luzes que os iluminam, convenhamos, irradiam um cromatismo contrastante. Os evangélicos pregam: ?Quando você dá o seu dízimo, Deus abre as janelas do céu e derrama bênçãos?. Os comunistas do PC do B cantam: ?O futuro grandioso dos povos está ligado à substituição do capitalismo pelo socialismo científico, que abolirá o sistema de propriedade privada e estabelecerá a propriedade social dos meios de produção?.
Pois bem, se a cara de um não se assemelha ao focinho do outro, mesmo que estejam próximos ao assento presidencial, é porque o Brasil é isso mesmo que o leitor está pensando, ou, se quiser, abriga uma democracia muito frouxa. A separação entre Igreja e Estado não é levada a sério. Só em território bárbaro politicamente um representante de partido nanico chega ao comando de um Poder Legislativo. Mas, no Brasil, há lugar para tudo. Na nossa democracia tudo é permitido, inclusive o que é proibido.
Veja-se a argamassa da crise. Disparates misturam-se a tiradas engraçadas e a arremedos trágicos, tudo sob o pano de fundo da provisoriedade. E quem põe lenha na fogueira é o próprio presidente da República. Não é ele que se queixa do denuncismo, tapando a vista para parlamentares envolvidos no esquema de corrupção, para as dezenas de pessoas afastadas da administração e mais de 70 empresas privadas e órgãos públicos relacionados nas investigações? Está cego para tudo isso, mas tem o olho aceso na reeleição. Por isso quer romper os diques da crise.
Qual é a estratégia? Desarmar o circo das CPIs. Três ações táticas foram concebidas. A primeira é a dos três macaquinhos, que têm os ouvidos tapados, a boca fechada e o os olhos vendados. Trata-se da tática de descaracterizar o ilícito e criar contrapontos e versões para os fatos. Por exemplo, dizer que as oposições e a mídia mentem ou exageram. Lula comanda a tática pela vanguarda. Usa a arma do verbo para atacar a falta de provas nas comissões de investigação. O ministro do dinheiro, Palocci, fica no meio, atirando com a arma das verbas. Os parlamentares ameaçados, a partir dos petistas, guerreiam na retaguarda, promovendo dissensões entre Corregedoria e Conselho de Ética, ciscando para os lados e protelando decisões. Dirceu vai até o Supremo.
A segunda tática é a da mudança de gênero. Governo e petismo, mães da crise, se transformam em pais do Brasil de economia exuberante. Lula continua na vanguarda, assessorado por Palocci, Meirelles e Furlan. Na arena externa, o PT resgata a velha linguagem de vestal.
A terceira tática é manobrada no Congresso com a ajuda de dois comandantes do teatro de guerra: Renan Calheiros e Aldo Rebelo. O presidente do Senado luta para as CPIs acabarem logo e o presidente da Câmara quer garantir uma agenda positiva para aliviar tensões. A confusão se amplia. Defendendo a seara dos partidos pequenos, onde está o seu PC do B, Rebelo sugere a votação da reforma política, o bode na sala para aliviar a cláusula de desempenho a vigorar nas próximas eleições. Discute-se como matar o princípio da anualidade e, se for o caso, estuprar a Constituição. O casuísmo entra na pauta. Enquanto isso, a proibição do comércio de armas vai a referendo, no próximo dia 23, sem passar por um debate amplo e sob a suspeita de uma campanha enviesada na TV. Os R$ 600 milhões a serem gastos nesse evento poderiam ser economizados, caso o referendo fosse incluído no pacote eleitoral de 2006.
E la nave và, aos trancos e barrancos, sob a oração evangélica do bispo Macedo, a nova fé de José Alencar e a ascensão do comunista Aldo Rebelo. Que Deus ecumênico nos proteja!
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.
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