O governador José Serra (PSDB) está recompensado por ter ajudado a passagem de seu candidato a prefeito de São Paulo para o segundo turno. Dificilmente a situação será modificada, caso esteja correta a leitura das últimas pesquisas. O inconveniente, se existe, é que o candidato preferido pelo governador é o atual prefeito Gilberto Kassab (DEM), que integrou a chapa lançada pela coligação PSDB-DEM na eleição anterior, na condição de candidato a vice-prefeito. Como se sabe Serra foi eleito e, ao deixar o cargo para disputar o governo estadual, assumiu o vice que ora disputa a reeleição.
É complicado, mas faz parte dos desdobramentos do processo político, perfeitamente exeqüíveis do ponto de vista da legislação eleitoral. Nesse caso, como é que fica o PSDB que lançou candidato próprio, Geraldo Alckmin, atropelando a harmonia entre tucanos e democratas? Só o tempo vai dar a resposta adequada à indagação e, então, se poderá calcular a verdadeira extensão das perdas no plano eleitoral de Serra em 2010.
Quando se afirma que o governador viu crescer o saldo de prestígio no interior da máquina partidária, colaborando para que o prefeito Gilberto Kassab abiscoitasse a segunda posição na intenção de votos dos paulistanos, a observação se fundamenta na possibilidade de Kassab surpreender no segundo turno, pondo em risco a eleição da petista Marta Suplicy. O prefeito leva ligeira vantagem sobre a petista nas simulações para o segundo turno. Sua intenção de votos cresceu nos bairros mais ricos, está consolidada nos bairros de classe média e também se expandiu de forma admirável nos pontos mais distantes da periferia. Segundo os analistas, o ritmo crescente do avanço de Kassab se deveu aos programas do horário eleitoral, nos quais foram mostradas as obras realizadas nos setores de saúde e educação.
Pelos dados atualizados, Marta tem 35% das intenções, Kassab, 27%, ou seja, nove pontos percentuais de vantagem sobre Alckmin, que tem 19%. Os votos acrescentados ao estoque inicial do prefeito não foram tirados da sacola da candidata do PT, mas a ele transferidos por eleitores que antes haviam revelado a intenção de votar no ex-governador. No primeiro momento, é natural que a perspectiva de derrota traga um inegável ressentimento às hostes tucanas alinhadas ao esforço de Alckmin. Contudo, nos bastidores, emissários do grupo do ex-governador procuram estabelecer alguma ligação com o pessoal do prefeito, visando o segundo turno. Aliás, seria uma suposição leviana sustentar posição diferente para o PSDB, senão o apoio direto à tentativa de reeleição do prefeito Gilberto Kassab.
E o partido fará exatamente isso de olho nas eleições presidenciais de 2010, para as quais tem dois potenciais candidatos, os governadores José Serra e Aécio Neves. Nas primeiras sondagens quanto à sucessão de Lula, Serra é o nome que salta à frente dos demais exibidos aos entrevistados, superando, entre outros, Aécio Neves, Ciro Gomes e Dilma Rousseff, figurando a provável candidata petista, por enquanto em último lugar na preferência dos eleitores que, entrementes, elegeram os píncaros do Olimpo como o lugar ideal para albergar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A favor da unção de Serra como candidato tucano à presidência em outubro de 2010, haverá de ser incorporada a surpreendente arrancada final de Gilberto Kassab, que já desperta nos atemorizados coordenadores da campanha de Marta a idéia maniqueísta de associá-lo ao malufismo (Kassab foi secretário na administração de Celso Pitta). Por sua vez, o governador mineiro terá pouca lenha para jogar na fogueira, em face da reduzida influência exercida sobre a opção dos eleitores em relação aos candidatos inscritos pelo PSDB nos municípios mais expressivos. A exceção é Belo Horizonte, embora o candidato apoiado por Aécio seja Márcio Lacerda, político jejuno filiado por conveniência ao PSB, também acolhido pelo prefeito petista Fernando Pimentel. A eleição de domingo nos mostrará o caminho.