Hélio Duque
?Quando a escola não ensina mais nada, as desigualdades sociais se perpetuam.? Jean-Paul Brighelli
Educador e professor universitário na França, o autor do conceito acima vem de lançar o livro La Fabrique du Crétin: La Mort Programmée de L?école (A Fábrica do Cretino – A Morte Programada da Escola. É reconhecido que a França sempre teve um dos melhores sistemas educacionais do planeta, no passado. Agora o educador Jean-Paul Brighelli demonstra em cima de objetivas pesquisas do Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos da França que a realidade é diferente. A nova pedagogia, afirma, ?objetiva a morte programada do saber, buscando fabricar cretinos. Um ser sem passado, sem história, sem bases. Restabeleceu a ignorância, mas uma ignorância diplomada e barata para o mercado de trabalho, necessária para a economia moderna?.
Na França o número de illetrés (analfabetos funcionais) vem demonstrando que o sistema remete para a sociedade indivíduos com base cultural insuficiente e nem mesmo tecnicamente dotados de eficaz competência. O livro está causando um furacão de debates na pátria eterna do iluminismo e ainda não tem tradução no Brasil.
Agora, se isso está acontecendo nas terras gaulesas, imagine nos países periféricos. Destacadamente o Brasil, onde há décadas existe um modelo educacional marginalizador dos valores humanistas, em nome de uma opção tecnicista e pragmática, como se fosse incompatível a integralidade das duas específicas formações. Nas universidades, com raras exceções, atingiu o nível máximo: a cultura humanista está sendo colocada em um patamar secundário.
No ensino médio não é diferente. É preciso enfrentar essa realidade com coragem desafiadora. Foi o que fez o senador paranaense Alvaro Dias ao apresentar o Projeto de Lei 004/2005, aprovado por unanimidade pela Comissão de Educação do Senado, alterando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e obrigando o ensino da Filosofia e da Sociologia nos currículos do ensino médio. O projeto é terminativo e não precisa ser aprovado pelo plenário. Vale dizer, está aprovado no Senado. Seguindo diretamente para a Câmara dos Deputados, que não poderá assumir outra postura senão de ratificar a aprovação, tornando-o, lei a ser cumprida. Para o bem das atuais e futuras gerações brasileiras.
Filosofia é o estudo que objetiva ampliar a compreensão da realidade no sentido de apreendê-la na sua totalidade. Sociologia é o estudo das relações que se estabelecem entre as pessoas que vivem numa comunidade ou num grupo social. Não se pode aceitar que essas duas fundamentais disciplinas tenham sido, nos últimos anos, excluídas da formação educacional da nossa juventude. O senador Alvaro Dias, ao afirmar que ?a filosofia e a sociologia têm a função de ajudar no reconhecimento da identidade social e de uma compreensão crítica da relação homem-mundo?, justifica por inteiro a importância histórica da sua iniciativa.
A pobreza do conhecimento está na raiz de muitos dos nossos problemas. Tanto econômicos quanto políticos e sociais. A educação de gerações não pode usar da manipulação do conhecimento, sob pena de consagrar o obscurantismo, incompatível com uma política educacional séria.
Ao obrigar aquelas disciplinas no currículo do ensino médio, o senador paranaense ataca de frente a pandemia cultural fruto de uma pedagogia deformada que vem infelicitando a educação nacional. O aprendizado da leitura deve começar em idade tenra e ter na formação educacional o seu ápice. Nos estágios fundamental, médio e superior. A reflexão, o saber pensar, o saber analisar a realidade vivente é tarefa elementar da escola.
Da antigüidade à contemporaneidade a mais eficiente maneira de combater a violência, ignorância e injustiças sociais é fazer da educação um instrumento de políticas públicas visando à formação da cidadania. O Brasil tem uma população de 170 milhões de habitantes e tem apenas 2.008 livrarias, de acordo com o Anuário Editorial Brasileiro. Já que começamos falando da França, é importante destacar que a sua capital Paris tem mais de duas mil livrarias. Aqui na América Latina, na Argentina, existem mais livrarias na Grande Buenos Aires do que em todo o Brasil.
Chegamos ao absurdo de termos municípios onde existem universidades, mas inexiste uma biblioteca pública. Aí reside a pobreza do conhecimento que está na raiz de muitos dos problemas que nos afligem. Mudar essa realidade não é possível sem uma competente política educacional e cultural.
O projeto de lei do senador Alvaro Dias, agora aprovado pelo Senado e tramitando na Câmara dos Deputados, precisa ter imediata aprovação. Recolocando o ensino médio nacional na trilha que nunca deveria ter sido abandonada: a consciente formação humanista das novas gerações.
Hélio Duque é ex-deputado federal.