A vitória apertada do “sim” sobre o “não” no referendo realizado domingo último na Venezuela, com uma diferença em torno de um milhão de votos, mostrou à opinião pública internacional que a sociedade do referido país não concorda nos níveis de unanimidade apregoados pelo chavismo, com o gesto obsessivo do presidente Hugo Chávez de disputar quantas sucessões desejar. No momento em que 95% dos votos estavam apurados, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), equivalente ao Tribunal Superior Eleitoral brasileiro, informava que 54,36% dos votos (mais de seis milhões) aprovavam a emenda constitucional da reeleição, ao passo que 45,6% (cinco milhões) renegavam a imposição.
Esse dado importante facultou aos analistas a afirmação de que Hugo Chávez deveria extrair do incisivo recado das urnas a inspiração para concluir o inacabado projeto das reformas sociais que prometeu ao povo venezuelano, sem apelos excessivos ao que o titular do Palácio Miraflores prossegue chamando de revolução socialista bolivariana. Na verdade, a diferença de um milhão de votos concedeu ao presidente uma espécie de sobrevida à intenção de disputar ilimitadamente a cadeira presidencial (até que a maioria lhe dê um sonoro basta), assim como lhe permitiu reaver um naco do cacife político perdido no referendo realizado em 2007, ocasião em que um projeto similar de reforma constitucional foi rejeitado, embora por margem estrita.
O sociólogo Javier Biardeau, da Universidade Central da Venezuela, disse aos repórteres internacionais que cobriram a eleição de domingo, que “o governo obteve uma importante vitória, mas não o suficiente para permitir uma margem de manobra capaz de levar à radicalização do projeto chavista”. A saída do presidente, diante da manifestação contrária duma acentuada parcela de eleitores, é temperar o ímpeto propagandístico da revolução bolivariana e, de forma prudente se concentrar numa administração capaz de resolver problemas crônicos da população, agravados pela crise financeira mundial.
A crise, como se sabe, dentre as muitas conseqüências negativas incidiu também sobre as cotações internacionais do petróleo, afetando a economia interna da Venezuela que tem na exportação de petróleo 94% das divisas obtidas anualmente pelo país. Segundo dados do próprio governo, os gastos atuais serão cobertos pela reserva de US$ 40 bilhões provenientes do excedente de renda propiciada pela indústria petrolífera. Entrementes, como ninguém consegue prever e extensão da crise, muitos economistas admitem que o governo ver-se-á impelido a cortar gastos, sobretudo nos programas sociais, solapando gravemente a base de apoio popular do autoconfiante líder da revolução bolivariana.
Chávez, porém, não é ingênuo a ponto de fazer ouvidos moucos à mensagem transmitida pelo eleitorado e, mesmo com a utilização de uma categoria eivada de ambigüidades se apressou a reiterar que o governo pretende trabalhar pela consolidação das políticas públicas ainda em aberto, transferindo as “novas frentes” para o próximo ano. Dentre a relação recorrente de boas intenções, vistas tanto aqui como acolá, Chávez deu ênfase ao reforço da segurança pública, combate à corrupção, eliminação da burocracia e ineficiência da administração pública. Casualmente, as queixas que mais aparecem nas pesquisas para aferir o nível de satisfação popular em relação ao governo.
Por enquanto, o presidente Hugo Chávez está amparado por uma margem relativamente confortável de eleitores. Contudo, não se pode afirmar que esse ganho esteja imunizado contra a corrosão com o passar do tempo. Analistas políticos não descartam o crescimento da oposição a Chávez mediante a administração pró-ativa de opositores eleitos para governar estados e municípios. Se a oposição mostrar eficiência nos itens que mais preocupam a população (criminalidade e serviços sociais), terá condições de construir uma candidatura forte para 2012. Caso contrário, o chavismo continuará vencendo.