Ivan Schmidt
Entre os séculos 18 e 19 floresceu na França um estilo literário muitíssimo apreciado pelos leitores e, por isso, praticado por nove entre dez intelectuais e escritores. Consistia em escrever retratos dos protagonistas da cena política e cultural do país, muitos dos quais, pela exatidão minuciosa com que discorreram sobre as nuanças dos escolhidos para o exame crítico, não raro, com uma acidez exemplar, passaram a figurar nas páginas mais apreciadas das antologias.
O filósofo contemporâneo Cioran pesquisou na literatura da época para escrever sua magistral Antologia do retrato (Rocco, RJ, 1998), um autêntico primor de verve, bom humor e, quase sempre, de dureza implacável dos autores selecionados ao lancetear o que consideravam pontos frágeis na personalidade e no caráter dos retratados. Uma leitura edificante à luz da politicalha praticada hoje em dia por figuras carimbadas da província, que se fossem objeto da verruma de Saint-Simon, Talleyrand, Chateaubriand ou Joubert – exímios retratistas – nada ficariam a dever em estilo, graça ou horror às figuras lendárias de Marat, Napoleão e Blanqui, entre tantas.
Isto posto, seria também indesculpável da parte deste escriba omitir a informação, preciosa e de grande serventia para o mais rigoroso juízo do leitor, de que não se sentiu tolhido em vislumbrar alguns nexos entre os notáveis de França e atores de nosso pobre teatro de mafuá, valendo-se de trechos inteiros de autores dos oitocentos, sempre que os teve como mais eficazes que as vãs tentativas de descrever as similitudes de alma de preclaros pró-homens, de tal forma que os contemplem em plenitude os cidadãos que anseiam dissecar o âmago dos semelhantes.
?A serpente que tentou Eva, que por meio dela abateu Adão e perdeu o gênero humano, é o original de que o duque de Noailles é a cópia mais exata, mais fiel, mais perfeita, tanto quanto um homem pode se aproximar das qualidades de um espírito dessa primeira ordem e do chefe de todos os anjos precipitados do céu?, escreveu Saint-Simon, em 1857.
?A mais vasta e mais insaciável ambição, prosseguia, o orgulho mais extremo, a mais confiante opinião sobre si mesmo e o desprezo mais completo por tudo que não seja sua própria pessoa, a ostentação de tudo saber, a paixão de se imiscuir em tudo, especialmente de tudo governar, o ciúme geral, particular e que se estende a tudo, uma vida toda ocupada com projetos e busca de meios para alcançar seus fins, todos bons, por mais execráveis, por mais horríveis que possam ser, desde que façam chegar ao que ele se propõe; uma profundeza sem fundo – eis o interior do Sr. de Noailles.?
Movendo-se como uma corpulência de camponês, dizia ainda Saint-Simon, o tal homem tinha espírito, afluência de pensamento, eloqüência natural e podia falar o dia inteiro e com agrado sem nunca dizer nada. ?Pode conviver convosco, amável e obsequioso enquanto premedita esmagar-vos com invenções as mais infernais.?
Por conseguinte, não é difícil imaginar que se falava dum homem que apreciava o poder e sabia dele extrair as mais agradáveis e duradouras benesses – peças de coleção, quadros e prataria – embora não se saiba dizer ter ele feito um amigo, nem sequer entre seus mais próximos.
Era, no entanto, mestre em baixas intrigas, como se delas sacasse os nutrientes de sua força vital, orgulhando-se de outra parte da sagacidade de obter informação por meio de confissões, delações e desavenças que estimulava entre os acólitos e, ainda, pela facilidade de fazer falar uns contra os outros. E, como a semente da amizade, do ódio, do reconhecimento e da vingança é a mesma, muitas vezes viu-se confrontado com a ira de uns ou outros meirinhos, aos quais espantava com palavras duras para depois atrair com promessas de prodigalidade duvidosa.
De tanto gabar-se da virtude de saber enganar todo mundo, ninguém mais acreditava nele mesmo quando falava com a maior franqueza, e por causa da freqüência com que apelava à leviandade, seu valor outrora aclamado diminuiu a ponto de não mais ser percebido.
Jamais foi por filantropia que professou a igualdade, mas pela inveja do poder dos outros. Os homens eram a seus olhos peças de xadrez que precisava mover, ocupavam-lhe o espírito, mas não lhe tocavam o coração. Trinta anos depois Talleyrand retrataria Sieyés, pintando-o como ?orgulhoso e pusilânime, necessariamente invejoso e desconfiado; por isso não tem amigos, mas tem sequazes submissos e fiéis?.
Semelhanças com pessoas vivas e conhecidas não são mera coincidência.
Ivan Schmidt é jornalista.