O termômetro da evolução dos investimentos está em queda e a situação é causada pela falta de encomendas de máquinas e equipamentos na indústria de bens de capital. O balanço realista foi feito por Paulo Godoy, presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), após verificação dos dados relativos ao primeiro bimestre de 2009, quando o setor de produção de bens de capital sofreu a redução de 19,5% em comparação com o mesmo período do ano passado.
Segundo o dirigente, o resultado da indústria de base após os meses iniciais da crise pode e deve ser classificado como um verdadeiro tombo, tendo em vista que o furacão originário do mercado financeiro norte-americano, em setembro passado, era muito mais violento do que se pensava e espalhou os rastros da destruição nas economias desenvolvidas. O presidente da Abdib asseverou, ainda, que a rapidez com que a crise se disseminou pelos mercados, afetando a economia real, jamais foi observada em ocasiões anteriores.
Os números mostram que entre os meses de setembro e dezembro do ano passado, a produção industrial diminuiu 20,1%, o maior índice dos últimos 15 anos. Quando a economia mundial foi atingida pelo colapso financeiro mexicano, por exemplo, a indústria teve uma queda de 12% entre dezembro de 1994, quando a crise começou, até tocar o fundo do poço em setembro do ano seguinte. No período de transição dos governos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, entre outubro de 2002 e junho de 2003, a queda da produção industrial não superou os 7,8%.
O estudo patrocinado pela Abdib revelou que atualmente a indústria brasileira está operando com acentuado índice de capacidade ociosa, de acordo com a sondagem da Fundação Getúlio Vargas (FGV) que atualiza, periodicamente, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) da indústria de transformação. Em março, a utilização da capacidade instalada ficou em 77,7%, caindo nove pontos percentuais em relação aos 86,7% medidos em junho do ano passado. Diante da constatação, ninguém se sente seguro para calcular em quanto tempo a indústria voltará aos níveis de produção anteriores à crise atual.
Apenas como referência, Paulo Godoy lembrou que a crise mexicana (final de 1994) exigiu um lapso de 33 meses para que a produção industrial voltasse ao ponto de partida. Em compasso quase igual, a crise asiática (outubro de 1997) também cobrou um preço amargo: 32 meses até o retorno da produção aos níveis anteriores à quebradeira. O outro aspecto negativo salientado pelo presidente da Abdib está no déficit comercial do setor de bens de capital sob encomenda, cujas exportações totalizaram em janeiro e fevereiro do presente exercício apenas US$ 448,3 milhões, ou seja, 44,3% abaixo dos US$ 806 milhões do primeiro bimestre de 2008. No mesmo período as importações tiveram um aumento de 18%, atingindo US$ 854,9 milhões, fazendo com que o saldo comercial do segmento regredisse do superávit de US$ 406,6 milhões em janeiro e fevereiro de 2008, para um déficit de US$ 81,3 milhões no mesmo intervalo de 2009.
Os efeitos da crise são observados igualmente no setor de produtos manufaturados, que registrou quedas de 17% na produção e 34,7% nas exportações referentes ao primeiro bimestre atual, em comparação com o mesmo período do ano passado. O levantamento foi realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O acúmulo de dificuldades para alguns setores específicos é mais sensível, tendo em vista o peso significativo do mercado externo na apuração dos resultados financeiros.
A crise contaminou rapidamente o comércio mundial e as inúmeras travas espalhadas em todas as direções chegaram também ao Brasil, problematizando de modo especial as exportações industriais. O impacto da recessão global não poupou ninguém e as perdas vão das montadoras de veículos automotores até às indústrias de alimentos, bebidas e cosméticos.