Procura-se um herói

O Brasil está à procura de um herói. Infelizmente, os heróis brasileiros ou estão mortos ou são meros registros históricos. Quem sobra? Pelé? Bom, esse renegou uma filha, que reconheceu por decisão da Justiça. A moça, vereadora em Santos, deve ter morrido de desgosto. Roberto Carlos? Esse censurou uma obra que falava de sua vida. Na seara política, há alguém? Aqueles que merecem aplausos unânimes estão enterrados no cantinho da saudade, como Ayrton Senna. Da política, sobram poucos. Juscelino Kubitschek é seguramente um símbolo de nossa bandeira de progresso. Quem mais? Só mesmo os vultos de nossa história mais antiga. A geração de passagem não exibe estrelas tão brilhantes que mereçam destaque na constelação. Quem posa de herói, todos os dias, é o presidente Lula. Por que razão? Porque Lula come em um prato de teflon. Que lhe foi presenteado pelos 40 milhões de pessoas que recebem o ?adjutório? de R$ 100 mensais do programa Bolsa Família. Por isso, pode se dar ao luxo de ver o irmão Vavá usar seu nome e nada lhe acontecer. Por isso, pode também ouvir, tranqüilo, Frei Chico, outro irmão, telefonando para pedir que Vavá não vá (e bota eco nisso…) ao Planalto fazer lobby. Trovoadas não molham a cabeça de Lula. Pedradas passam ao longe do rosto presidencial. Nada prega nele. A frigideira de teflon que o povão lhe ofereceu não deixa nem rastro de colher.

Vez ou outra, os nossos corações vibram de emoção com as nossas equipes de basquete e vôlei ou com o desempenho de algumas atletas jovens. É a coisa melhor que temos. Os nossos heróis são mesmo os trabalhadores anônimos que fazem esse país crescer. Que batalham na labuta para sobreviverem. Que fazem pontes, estradas, escolas, e se espalham, aos milhões, nos espaços do pequeno comércio e nos serviços. Mas os heróis da mídia desapareceram. O que há de sobra é um amontoado de administradores públicos ineptos, empresários corruptos e lobistas inescrupulosos. Cerca de 6 mil destes foram presos nos últimos anos. Quantos há nas cadeias? Nenhum. O Brasil está, sim, à procura de um herói. Não do tipo capaz de querer vender ilusões. Quem vestiu esse manto, no passado, acabou sendo eleito presidente da República, mas foi tragado pelo tufão social, que forçou seu impeachment, a partir da maré de denúncias e escândalos vazados pela mídia. De lá para cá, a sociedade tomou um banho ético. Vacinou-se. E passou a rejeitar perfis milagreiros, divinos. Por isso, o herói que o povo procura deve ter face humana. Mas uma face plasmada pelos valores da honestidade, ética, autoridade, respeito, determinação, coragem, despojamento, simplicidade.

Há alguém com este perfil? Quem sabe onde ele está, que aponte. Nem a nossa seleção de futebol encanta mais. Em que saia se escondeu o Ronaldão? Em que bela mansão festeja o Ronaldinho? Os esportes estão marquetizados. As disputas são movidas pela força do metal. E o glamour se esvai dos palcos e estádios, sufocando nossas emoções. O mundo se materializa. Os homens são cada vez mais tratados como coisas. O desfile nas telas de TV é uma ampla exibição da dissonância nacional. Passam pelos nossos olhos figuras esquisitas e discursos tortos. A demagogia campeia nas promessas mirabolantes, nos espetáculos das CPIs, nas operações espalhafatosas da Polícia Federal, na recitação artificial de qualidades inventadas, na exposição de cenários e propostas irreais. E se isso ocorre, é porque a política passou a colocar na vala comum pessoas de boa e má-fé, bem intencionados, interesseiros e oportunistas. Siglas de aluguel – há 29 partidos políticos – se misturam aos grandes partidos, que, por sua vez, são desfigurados de doutrina.

A política no Brasil está se transformando em um grande comércio, onde atores procuram se revezar no balcão das trocas. Há 5.560 municípios em 27 unidades federativas. Cresce o custo da política. Um vereador carioca custa R$ 5,9 milhões por ano; um vereador do Rio Branco, R$ 715 mil; o eleitor gasta R$ 18,14 anuais com a Câmara e R$ 14,48 com o Senado. Ou seja, o orçamento do Senado equivale a R$ 41,8 milhões por senador, enquanto na Câmara (513 parlamentares), o custo é de R$ 5,2 milhões. Devemos ter motivos para acreditar na melhoria dos padrões da política e dos perfis? Veja-se essa reforma política em andamento na Câmara Federal. Trata-se de uma reforma do mais ou menos. Expliquemos. A cultura do ?mais ou menos? é a que mais dá frutos na seara nacional. Você trabalha quantas horas por semana? ?Mais ou menos 40 horas.? Você é católico ? ?Sou católico, mas não praticante.? Pois bem, assim é a reforma política que entra na agenda da Câmara Federal. Começará com a discussão sobre listas fechadas e fidelidade partidária. Os partidos são favoráveis? Mais ou menos. Uns, mais, outros, menos. Até o PT, velho de guerra, está rachado. Qual será o resultado final da reforma política? Algo parecido com zebra e elefante, um bicho mais ou menos feio. E quando terminará esta obra magnífica? Ali por volta de 2015.

Mas como a esperança é a última que morre, locupletemo-nos de esperanças. Esperemos por um banho racional. E que um sopro de renovação invada os espaços que não receberam oxigenação. E que se olhe para os perfis, avaliando seu passado, examinando suas condutas. Há muito lobo querendo se passar por cordeiro. E muito canalha desejando parecer santo.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.

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