Prisioneiro das circunstâncias

É possível imaginar que a primeira sugestão feita pelo recém-contratado marquetólogo de Lula, o novo baiano João Santana, tenha sido a recidiva da extemporânea e pouco convincente reação golpista de alguns setores da oposição, encaixotados numa exótica comparação com a Fedecámaras, entidade venezuelana que congrega as principais correntes do setor produtivo, ou seja, o estrato social que detém o grosso do PIB do país caribenho.

Em termos de Brasil, seria como se a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), estivessem unidas numa frente de sistemática hostilização do ente governamental, o que visivelmente não acontece. Aliás, poucas vezes o setor produtivo foi tão complacente com o governo, como na fase atual, agindo de forma equilibrada em suas críticas ao arrocho fiscal, à altíssima carga tributária e à insuportável taxa de juros, eleitas pelos círculos formadores de opinião na política mundial como causa direta da monumental estagnação da economia brasileira.

Nem mesmo os partidos políticos situados no lado oposto da casamata lulista patrocinam o arreganho golpista, salvo os isolados destemperos do senador Jorge Bornhausen, último abencerrage do nosso conservadorismo, vez que Antônio Carlos Magalhães já pendurou as chuteiras e não pode ter a veleidade de passar a bola para o neto na Câmara dos Deputados, nada mais que um garoto encandeado pelos refletores.

Assim, além de chegar tarde ao discurso do golpismo, Lula não é assistido pela menor evidência dessa ameaça balouçando nas proximidades do Palácio do Planalto. Mais adequado seria pensar na exposição de uma tática – não deu certo em tempo algum – de aparelhar as classes menos favorecidas na defesa candente do mecenas que lhes dá o pão e o cobertor.

Perón fez isso na Argentina, mas tinha ao lado a mulher Evita, um mito pessoal bem mais poderoso que o próprio ditador. Aqui temos os exemplos fracassados de Jânio, retirando-se para o Campo de Marte, em São Paulo, onde esperava ser aclamado pela massa que não compareceu, e Collor no descabelado apelo final ?não me deixem só?. Na Venezuela, e aí a comparação é lícita, a massa historicamente vilipendiada tomou nas mãos a defesa do mandato constitucional de Hugo Chávez, tendo em vista a voracidade com que a classe dominante apropriou-se da riqueza, direito divino do qual não pretende abrir mão.

Aqui nem isso ocorre, em primeiro lugar porque não está em operação a alardeada cupidez do golpe e, em segundo, porque as extensas camadas do lúmpen e dos miseráveis têm mais o que fazer garimpando nos restos deixados pela opulência a ração necessária para a sobrevida.

Felizmente estamos distanciados do tempo em que a Fiesp foi dirigida por pessoas com a mentalidade de Mário Amato, este sim falacioso pregoeiro do retrocesso, autor da infeliz previsão da debandada de empresários rumo ao Paraguai, caso Lula fosse eleito presidente da República.

Pois nem mesmo tal discriminação persistiu, tirante as recorrentes arengas da boçalidade dos cultores da pretensa superioridade alcançada com o processo de embranquecimento da raça.

A ruptura política encarnada pelo metalúrgico Lula, depois de três tentativas frustradas, decerto trouxe inusitada ansiedade a determinados estamentos, embora tenha levado muitos outros a perfilhar o escorreito raciocínio do poeta Walt Whitman, assim desenhado pelo biógrafo Paul Zweig: ?Quebre as rígidas camadas do privilégio de classe e do interesse político, e então talvez você veja um ?mecânico? comum, de modos rudes, ingênuo, instintivamente honesto, que sairá de sua oficina para a capital da nação, para dirigir os negócios do país por algum tempo, e depois retornar com toda a simplicidade à oficina?.

Então, no Brasil, um ex-operário de fábrica, líder político forjado no sindicalismo liberto do tradicional peleguismo, ungido pelo voto de 53 milhões de pessoas, tornou-se presidente da República. Uma belíssima lição para o mundo. Se na chefia do governo, o operário não se houve a contento e acabou manietado por costumes abjurados pela malha ideológica do partido recém-chegado ao poder, nem por isso a análise da conjuntura deveria descambar para o terreno movediço da especulação. Sobretudo, da parte do presidente da República.

Há um ano para escoimar os desvios cometidos por falsos amigos, oportunistas desavergonhados, melhor seria dizer. O tempo é limitado para uma obra administrativa de vulto, mas suficiente para o presidente ultimar a mais importante das tarefas: cortar as amarras que o transformaram num prisioneiro de suas circunstâncias.

Ivan Schmidt é jornalista.

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