A concordância do governador paulista José Serra com a realização de prévias partidárias para a escolha do candidato do PSDB à presidência da República, em 2010, além de caracterizar gesto magnânimo em relação à cruzada desenvolvida nessa direção pelo governador Aécio Neves, de Minas Gerais, tem igualmente o sentido de demonstrar ao eleitorado que os tucanos estão dispostos a envidar todos os esforços para assoalhar a pacificação interna de seus ninhais.

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Esta é, aliás, a providência óbvia a ser compromissada por um grupo da expressão da social-democracia brasileira, se de fato pretende disputar em igualdade de condições com o candidato situacionista a corrida pelo poder.

Em todas as pesquisas de intenções de voto realizadas até agora, com o objetivo de aferir a preferência popular quanto ao sucessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governador José Serra ocupa em todas elas, com acentuada vantagem, o primeiro lugar. A seguir aparecem os nomes de Aécio Neves (PSDB), Ciro Gomes (PSB), Heloísa Helena (PSOL) e Dilma Rousseff (PT), que somente na última pesquisa conseguiu mostrar que está viva e atuante no bloco dos pré-candidatos.

Os articuladores políticos do Palácio do Planalto, capitaneados pelo próprio presidente da República, pressentiram esses sinais de vida e correram a anunciar a decisão de transformar a agenda da ministra-chefe da Casa Civil num escancarado roteiro de pré-campanha eleitoral.

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A programação prévia das aparições públicas da candidata virtual da base governista, nos próximos meses, não elimina sequer as oportunidades do relançamento das pedras fundamentais de obras públicas, inauguração de outras tantas relegadas ao abandono pela enervante catalepsia da administração pública, ou da assinatura pomposa de ordens de serviço para o início de obras de importância tão duvidosa quanto os jardins suspensos da Babilônia.

Voltando ao ninho tucano, sabe-se que a sugestão das prévias internas foi mantida em banho-maria pela cúpula partidária, claramente influenciada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos principais articuladores da candidatura de José Serra. Todavia, para a agremiação que congrega os que se têm na conta de últimos abencerrages da pureza política nacional, não faria justiça à conduta balizada pelo fair play, dar sustentação a um desconfortável contencioso com um de seus quadros de maior futuro, exatamente o governador Aécio Neves.

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Entretanto, os condestáveis ungidos pelo consenso dos caciques para soprar o diapasão da política interna do tucanato se valeram de uma fórmula subliminar para advertir o governador mineiro que o açodamento não é bom conselheiro para os que pretendem beber água fresca e comer sem queimar a língua. Eis que de repente, um fiel aliado de Aécio, Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo e candidato derrotado por Lula nas eleições presidenciais de 2006, foi brindado com estratégica e espertíssima nomeação para uma das secretarias do governo de José Serra.

A concordância de Serra com as prévias internas, se não se tratar duma jogada para o público externo, decerto não caracteriza uma decisão tomada de inopino, sem pesar minuciosamente as informações recolhidas em cada escaninho do partido. Não é usual à práxis política do governador paulista apostar suas fichas em lances arriscados. Assim sendo, não há a menor dúvida de que Serra faria qualquer coisa para manter em fogo brando o caldo das prévias, caso não tivesse confiança suficiente no apoio da maioria dos diretórios regionais à sua própria candidatura.

O governador Aécio Neves não ficará à deriva no ambiente partidário e, como bom democrata, por certo absorverá a escolha soberana do tucanato. Como se percebe, não há sanção para golpes abaixo da linha da cintura. Para punhos de renda, somente são admitidos os tapinhas de luva.