Preconceito indiscutível

Vivemos um período de empregos raros e poucas vagas abertas. E dois grupos são particularmente afetados. Um é o que, infelizmente, sempre paga pela falta de experiência: os novatos, recém-formados ou saídos das escolas técnicas. Estes terão uma constante tarefa, que é a de passar confiança para quem oferece o emprego, diminuindo o impacto do noviciado com a vontade típica dos jovens. Não é fácil, ninguém nasce pronto (e ninguém fica pronto), mas a juventude tem garra para continuar na briga.

O outro grupo sofre justamente pelo contrário. Os mais velhos, acima de 50 ou 60 anos de idade, são discriminados porque já não são mais jovens, e em tese não conseguiriam manter o ritmo que tinham há duas ou três décadas. Toda a experiência acumulada é esquecida quando um recrutador olha para os cabelos brancos e para as rugas. Ser mais velho, em um mundo “juvenil”, é bastante complicado. Ainda mais quando medidas sem a menor justificativa são tomadas pelas empresas.

Uma delas foi manchete da edição de ontem de O Estado. É a determinação da Companhia Paranaense de Energia (Copel) em desligar até março do ano que vem todos os funcionários já aposentados pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). É uma decisão polêmica em todos os sentidos.

A primeira reação foi dos sindicalistas, como apontou a repórter Elizabete Castro: “Os sindicatos que representam as várias categorias de trabalhadores da Copel vão propor ações na Justiça do Trabalho contra a decisão da empresa de desligar os aposentados pelo Instituto Nacional de Seguridade Social. (…) A direção disse que o Programa de Incentivo à Aposentadoria faz parte do processo de renovação dos quadros da companhia e determinou aos diretores de cada setor que apresentem, até o final deste mês, a relação dos servidores que podem ser dispensados até o próximo ano. (…) O diretor do Sindicato dos Engenheiros do Paraná, Ulisses Kaniak, disse que não existe amparo legal para a decisão da Copel. Kaniak afirmou que a legislação em vigor não impede o exercício da atividade por aqueles servidores que já estão aposentados pelo sistema de previdência social”.

A diferença básica desta iniciativa da Copel e um plano de demissão voluntária, comum em muitas empresas, é o fato de que não há escolha para os aposentados – eles têm até março de 2010 para sair da concessionária de energia elétrica. Não terão mais o acesso à Fundação Copel, que complementa a aposentadoria e dá aos mais velhos um prosseguimento de vida digno, perderão seus direitos trabalhistas e terão que buscar vagas em um mercado que, como dito anteriormente, não se interessa mais pelos profissionais de maior idade.

E qual é o grande defeito deles? O fato de estarem aposentados? As coisas não podem ser assim. Toda a capacidade destes funcionários será jogada no lixo simplesmente porque têm algum provento do INSS. Qual será o impacto desta decisão no nível de excelência da Copel? A empresa está pronta para correr o risco de perder alguns de seus principais profissionais por nada? Se a Copel quisesse, poderia ter um plano de demissão voluntária. É natural, é permitido e dá ao funcionário a oportunidade de escolher. Certamente há quem queira parar de trabalhar, mas há também quem não queira, e cada um precisa ser tratado da melhor maneira possível.

Agir assim, de forma imperial, não é correto – ainda mais em uma empresa com a credibilidade da Copel. Não se faz assim uma renovação de quadros. Que os responsáveis por uma das marcas mais importantes do Estado pensem bem na empresa e em seus funcionários, e quem sabe mudem de idéia, para o bem da sociedade paranaense.

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