José Eduardo Delfini Cançado
O tabagismo é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a principal causa de morte evitável em todo o mundo. Por isso, há duas décadas, a OMS busca sensibilizar o maior número possível de pessoas sobre os males causados pelo consumo do tabaco e seus derivados. A OMS, aliás, estima que um terço da população mundial adulta, isto é, 1 bilhão e 200 milhões de pessoas sejam fumantes. Pesquisas comprovam que aproximadamente 47% de toda a população masculina e 12% da população feminina no mundo fumam. Enquanto nos países em desenvolvimento os fumantes constituem 48% da população masculina e 7% da população feminina, nos países desenvolvidos a participação das mulheres mais do que triplica: 42% dos homens e 24% das mulheres têm o comportamento de fumar. O total de mortes devido ao uso do tabaco atingiu a cifra de 4,9 milhões de mortes anuais, o que corresponde a mais de 10 mil mortes por dia. Caso as atuais tendências de expansão do seu consumo sejam mantidas, esses números aumentarão para 10 milhões de mortes anuais por volta do ano 2030, sendo metade delas em indivíduos em idade produtiva (entre 35 e 69 anos) (WHO, 2003).
Nas últimas décadas, graças a essas campanhas antitabaco, aumento dos impostos (aumento do custo), proibição de propagandas enganosas e surgimento de novos medicamentos, no Brasil, a prevalência do tabagismo vem diminuindo. De 32,5% em 1989, em 2003 este número caiu para 17,4%. Apesar dessa diminuição é importante lembrar que o tabagismo está relacionado a 30% das mortes por câncer, 90% das mortes por câncer de pulmão, 25% das mortes por doença coronariana (infarto do coração), 85% das mortes por DPOC (bronquite e enfisema) e 25% das mortes por derrames. O fumo é um dos principais responsáveis pelas duas maiores causas de mortes por doença em nosso país: doenças cardiovasculares e câncer e, hoje, é considerado a maior causa de morte evitável, matando mais do que a aids, acidentes, drogas, suicídios e homicídios, juntos.
Os custos do tratamento das doenças relacionadas ao fumo são divididos em tangíveis (tais como, assistência à saúde – serviços médicos, prescrição de medicamentos, serviços hospitalares, etc. -; perda de produção devido à morte e adoecimento e à redução da produtividade; aposentadorias precoces e pensões; incêndios e outros tipos de acidentes; poluição e degradação ambiental e, pesquisa e educação) intangíveis (morte de fumantes e não-fumantes e o sofrimento dos fumantes, não-fumantes e seus familiares).
O tabagismo gera uma perda mundial de 200 bilhões de dólares por ano, sendo que a metade dela ocorre nos países em desenvolvimento. Este valor, calculado pelo Banco Mundial, é o resultado da soma de vários fatores, como o tratamento das doenças relacionadas ao tabaco, mortes de cidadãos em idade produtiva, maior índice de aposentadorias precoces, aumento no índice de faltas ao trabalho e menor rendimento produtivo.
O Banco Mundial estimou que as políticas de prevenção são as que têm maior custo-efetividade. Conseqüentemente, são importantes componentes da economia de um país no que se refere à manutenção da saúde da população.
Também calculou que, para colocar em andamento um pacote essencial de intervenções em saúde pública em que o controle do tabagismo esteja incluído, os governos deveriam gastar, em média, quatro dólares per capita nos países de baixa renda e sete dólares per capita nos países de renda média.
Outro problema que merece destaque é a questão do tabagismo passivo. O tabagismo passivo, também chamado involuntário ou ambiental, é uma importante questão de saúde pública, uma vez que para cada tabagista ativo existem 2 tabagistas passivos. Dessa forma, se calcula que 2/3 da população mundial sofre com a exposição tabágica. O tabagista passivo inala o correspondente a 1% do que é fumado no ambiente. Se as condições de ventilação forem precárias como em danceterias ou pequenos domicílios, esta concentração poderá ser muito maior.
Os efeitos do tabagismo passivo, amplamente comprovados por estudos científicos, são a maior freqüência de morte súbita e de problemas respiratórios como asmas e otites nas crianças e, no adulto, quando o mesmo é asmático ou DPOC, as crises são mais freqüentes e graves.
O controle do tabagismo passivo deve ser um compromisso do poder público, médicos e sociedade como um todo. Para isto se faz necessária a correta implementação do binômio legislação-educação.
Hoje o tabagismo é considerado pela OMS uma doença, uma dependência química, uma vez que o poder viciante da nicotina é muito semelhante ao de outras drogas, tais como, o álcool, a heroína e a cocaína. Assim, a informação e educação é um forte aliado nessa luta. A maioria dos fumantes quer parar de fumar, mas não consegue e tem medo do próprio fracasso, muitas vezes, nem tentando abandonar o vício.
Por ser considerado um doente crônico, o fumante deve ser tratado como um dependente de drogas. Existem tratamento e medicamentos, tais como a reposição da nicotina, a bupropiona e a verenaclina, que reduzem a vontade de fumar e os sintomas de abstinência da nicotina. É importante acabar com o preconceito e estimular os fumantes a procurar auxílio médico.
Procure um médico pneumologista, ele pode te ajudar nessa luta.
José Eduardo Delfini Cançado é doutor em Ciências e pesquisador da Faculdade de Medicina da USP e diretor da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia. Contato: educancado@uol.com.br