A larga diferença entre os percentuais de voto do atual prefeito Gilberto Kassab e da candidata petista Marta Suplicy (17 pontos), aferida na semana passada pelo instituto Datafolha, continua a fazer em pedaços a imagem desgastada da ex-ministra do “relaxa e goza”. Visivelmente abalada na auto-estima e na confiança de voltar a ser prefeita da maior cidade brasileira e uma das quatro mais importantes do mundo, sua propaganda radiofônica abriu a programação de retorno ao horário eleitoral gratuito com uma mensagem de conteúdo subliminar, levantando dúvidas sobre a vida privada do oponente.
Marta, que confessou não ter conhecimento prévio da peça publicitária, cuja responsabilidade atribuiu ao marqueteiro João Santana, não titubeou em concordar com a mesma, afirmando ser um direito do eleitor conhecer tudo sobre a vida dos candidatos e seus relacionamentos familiares. Até se é casado ou se tem filhos. A ex-ministra, que ao se divorciar do senador Eduardo Suplicy para se casar com o franco-argentino Luiz Favre, afirmou ter sua vida devassada pela imprensa e por isso esperneou o quanto pôde, agora não vê o menor problema em pôr em dúvida a reputação do adversário político. Seria o caso de perguntar se a súbita preocupação de Marta com a privacidade alheia, coisa que jamais fez parte de sua carreira midiática de psicóloga e sexóloga, atiçou em sua índole permissiva o destempero pelo fato de estar sendo preterida pelo eleitorado paulistano?
Um pouco antes da realização do primeiro turno, o marketing político de Marta já havia tentado (e ainda prossegue tentando) restabelecer a conexão de Kassab com o malufismo, lembrando que o prefeito foi secretário do Planejamento da gestão Celso Pitta, sucessor de Maluf. Além disso, Kassab é oriundo do antigo PFL (sucessor da Arena) e, por isso, transporta no DNA político a mancha de pertencer ao “partido dos coronéis do Nordeste, do atraso, um partido em extinção”. Contudo, a candidata petista parece não aplicar o mesmo viés ideológico a alguns titulares de ministérios no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que foram entusiasmados apologistas da ditadura.
Referindo-se a esse pormenor descartado pelo presidente Lula, que participa das campanhas de políticos que em passado recente o acusaram de omissão e condescendência com a corrupção praticada por figuras hieráticas do Partido dos Trabalhadores, Marta sacou um raciocínio que é a cereja no creme da algaravia maniqueísta: “Lula sempre teve um lado. Igual ao Kassab. Como presidente do Brasil, ele pode ter que estender a mão para lá ou para cá, e ele faz isso muito bem, sem perder a sua integridade”. Dizendo de outra forma, à luz do estrabismo político manifestado pela ex-ministra, só ao atingir a elevada posição de presidente da República o cidadão estará apto, sem prejuízo do patrimônio ético, para selar as alianças de conveniência que bem entender, conquanto consiga firmar ainda mais as cordas que o prendem ao poder.
Por essas e outras a maioria do eleitorado paulistano, como mostrou a pesquisa Datafolha em relação ao segundo turno, decidiu confirmar o voto em Kassab, aliado do governador José Serra. Na verdade, Marta viu frustrada a intenção de conquistar eleitores nos bairros de classe média e, mais grave, arcou com a desventura de testemunhar o encolhimento dos índices eleitorais em redutos históricos do petismo na cidade de São Paulo.
O presidente Lula, de quem se supunha uma participação agressiva na campanha de Marta e dos companheiros que disputam o segundo turno em municípios do ABC, em inexplicável ação logística retirou-se para uma semana de andanças pela Europa e norte da África. Nos bastidores, diz-se que Lula duvida das chances cada vez menos concretas de Marta, para ele “uma mulher de temperamento difícil”, reverter o quadro adverso há 12 dias da eleição.