?Haveremos de resguardar a canalhice necessária para aderir em tempo oportuno.? O médico e escritor Pedro Nava, contemporâneo de Juscelino Kubitschek, transcreve na sua obra essa expressão de um velho coronel mineiro do Vale do Jequitinhonha. Resguardar a canalhice para aderir em tempo oportuno vem sendo um triste momento do tempo brasileiro, pós-redemocratização. Nas últimas duas décadas essa filosofia vem sendo praticada à exaustão na política nacional. A cultura da vassalagem de princípios e fundamentos éticos e morais passaram a prevalecer. Aderir ao poder a qualquer preço gerou uma cultura política cortesã.
A sociedade queda-se perplexa diante dessa canalhice militante. Ao votar democraticamente, define parâmetros objetivos: quem deve governar e quem deve ser oposição. A fragilidade dos partidos políticos se encarrega de sepultar esse parâmetro. A inexistência da fidelidade partidária e doutrinária é a garantia da adesão fisiológica ao poder triunfante. Expressivos contingentes remetidos para a oposição rasgam a bandeira pela qual foram eleitos para se integrar cavilosamente nos governos em todos os níveis. Federal, estadual e municipal. Aí reside um dos referenciais da baixa credibilidade e respeito de enormes contingentes da vida política parlamentar brasileira.
Essa ação marginal sempre teve presença no passado, mas em níveis menores. No presente, essa canalhice assumiu proporções oceânicas. Coerência no respeito ao compromisso popular celebrado com os eleitores passou a quase ser sinônimo de palavrão. A sedução da adesão ao Executivo em tempo oportuno resguarda a canalhice, como profetizou o personagem de Pedro Nava. É o inverso do conceito hispânico: ?Se hay gobierno, soy a favor?.
Nesse cenário os políticos de resultados, autênticos despachantes de luxo, encaixam o argumento falacioso. Para atender as suas regiões não podem divergir do poder triunfante, sob pena de ver marginalizadas as suas propostas de atendimento a demandas regionais. Renegam e negam na atuação parlamentar o compromisso transparente formulado no momento da disputa eleitoral. A honra do mandato é maculada pela adesão sem convicção. Ignoram o notável ensinamento do pensador espanhol Calderón de La Barca: ?Ao meu rei tudo, menos a honra?.
Ainda agora a anunciada ?coalizão política?, formatada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem todos os ingredientes conteudísticos do que estamos falando. Não se formula um programa conseqüente de governabilidade. Não se discutem os fundamentos de um projeto de desenvolvimento para o País. A tese aglutinadora é a divisão de benesses, pela via da ocupação de ministérios e poderosas empresas públicas. Não se encontram posições de firmeza objetivando o enxugamento da máquina pública, redução da carga tributária de padrão escandinavo. O foco da adesão ao governo não se realiza buscando governar para o bem comum, para construir um caminho que sirva para consolidar uma sociedade mais justa, humana, fraterna, sob a égide do desenvolvimento com justiça social.
Prevalece a visão rasteira dos velhos caciques e donatários provinciais que fazem política para consolidar os feudos do atraso. Dispensável citar nominalmente esses agentes noviços e profissionais do apoio a todo e qualquer governo. São camaleões políticos. Usam a estrutura pública para atender demandas e interesses menores. Com isso acumulam poder e prestígio e, quase sempre, incorporam patrimônio pela traficância sem limite nos corredores do poder.
Os homens e mulheres que fazem da política o ato supremo de lutar intransigentemente pelo interesse comum da sociedade são marginalizados. Os políticos éticos, decentes (e são muitos), transformam-se no sal da terra. Deles não se pode prescindir, daí a imperiosidade de prestigiá-los, nesse tempo de engodo e de prevalência dos oportunistas e aventureiros. A opinião pública consciente precisa ser o sustentáculo daqueles que honram o voto popular. São vocações públicas comprometidas unicamente no respeito ao ato de servir. E não servir-se do mandato popular. São os que impedem que a chama da esperança se apague. É o contraponto à canalhice do ?tempo oportuno?.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.