Plataformas esvaziadas

O jornalista Thomas Friedmann, titular da mais freqüentada coluna de opinião da imprensa norte-americana, não por acaso publicada pelo The New York Times, escreveu em seu recente livro O mundo é plano que ?a esquerda ainda acredita em um mundo em que os pobres odeiam os ricos. Isso não é verdade. Os excluídos odeiam não ter as mesmas oportunidades dos ricos, e isso é algo muito diferente da velha luta de classes?.

Para os defensores do igualitarismo, e eles estão aí aos montes, a opinião é causadora do asco mais renitente porque se deixaram levar pelo gosto de deslustrar o pensamento alheio, sobretudo, quando esse não serve de arrimo a suas plataformas esvaziadas e abaladas pela mudança radical dos paradigmas que julgavam imutáveis. É que pessoas desse matiz ideológico, mesmo com alguma razão, têm enorme dificuldade para extrair alguns pingos de veracidade, por menores que sejam, de um panorama antagônico que combatem com a ferocidade de guerreiros hunos.

Carregados de ambigüidade eles se esbofam para tornar crível o discurso falsamente erudito, na verdade, já depenado de todos os argumentos que tiveram alguma autenticidade há três décadas, quando foi mais consistente o processo de vulgarização de uma realidade sociopolítica hoje inteiramente degradada, não apenas por seus erros crassos, como também pela superposição de um conjunto de valores discutíveis – é verdade -, mas muito mais próximos dos anseios populares, ultimamente um recheio sempre invocado para dar sustança à prosopopéia ditada pelos humores ideológicos dos carreiristas de plantão.

Para entender o verdadeiro significado do termo ambigüidade, é instrutivo seguir o ensinamento do lingüista francês M. Beauzée, citado por Pierre Bourdieu: ?O que torna uma frase ambígua provém, pois, da disposição particular das palavras que a compõem, quando elas parecem, à primeira vista, ter uma certa relação, embora na verdade tenham outra: é por isso que as pessoas estrábicas parecem olhar para um lado, enquanto de fato elas olham para outro?.

Bajuladores domesticados por conveniências mil a aplaudir tudo o que ouvem do ínclito ser superior, em nome da sobrevivência improvável em ambiente que requeira um mínimo de vontade e inteligência autônomas, dispensam quaisquer resquícios de dignidade e auto-estima para se transformar, de moto próprio, em robotizados psitacídeos capazes de recitar ao infinito a melopéia que lhes foi inoculada. Pela obstinação com que procuram esconder a realidade escancarada, acobertando-a com ilações que guardam escassa relação com a lógica, esses subservientes acabam absorvendo a função de elementos úteis na construção de arquétipos de figuras indesejáveis como o foram Mussolini, Perón ou Pol Pot, apenas para ficar na superfície do estranho mundo em que a distorção mental arrasou consciências e aniquilou vidas.

Esses seres são igualmente responsáveis pela redução da verdade a fórmulas temporais dadas como legítimas, mesmo quando em confronto com a realidade factual, identificando-se a si mesmos como portadores de uma letargia próxima do mesmerismo.

A sujeição pessoal ao discurso da vulgarização, felizmente, é uma prerrogativa às avessas de minorias, porquanto homens e mulheres de raciocínio limpo e independente não se permitem embair pela lábia recorrente dos iluminados que insistem em fazer da vida pública um terreiro de milagres.

Uma recorrência viciada pela visão de mundo que abusa de eufemismos e bordões paroxísticos para descrever situações consideradas anômalas e traumatizantes, tanto mais demoníacas quando gestadas por laboratórios da economia globalizada e do neoliberalismo, agentes satânicos de olhar lúbrico na transformação genética de uma oleaginosa de verão e, por tabela, nos portos e vias navegáveis de um país mais lembrado pelo exótico nome de Botocúndia, cujo pavilhão nacional ostenta atrativa penca de bananas.

Vive-se nesse contexto o dilema de escolher entre a defesa da verdade irreprochável, ou o ato covarde de rezar por uma cartilha reducionista, representando o papel de vanguarda duma ?intelligentsia? que se pretende via de mão única. Trilhar esse caminho é coonestar o império do descrédito, aceitar o nivelamento mecânico e ridicularizar o que é certo.

Ivan Schmidt é jornalista.

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