Há dez anos a Petrobras começou a pesquisar a possibilidade da existência de petróleo debaixo da camada de sal, nas áreas exploratórias marítimas, das bacias de Campos, Espírito Santo e Santos. O desafio era saber se após a camada de sal de 2.000 metros haveria base geológica determinativa da existência de petróleo. Numa área localizada a 280 quilômetros da costa e ao tempo de uma década, após expressivos investimentos e desenvolvimento tecnológico de ponta gerados pelos técnicos da empresa, numa profundidade de 7.000 metros, encontrou-se grande reserva de petróleo. Se comprovada nos próximos anos, essas reservas abrangeriam uma região de 800 quilômetros de extensão e 200 quilômetros de largura. Integradas as três bacias nessa extensão marítima, estima-se montante de óleo acima dos 80 bilhões de barris. Na primeira etapa, 8 bilhões de barris.
O anúncio carnavalesco e marqueteiro da descoberta foi digno desse tempo de espetacularidade, onde a versão é mais importante do que o fato. A frase da ministra Dilma Rousseff é definitiva: ?Modificamos o paradigma geológico do País?. Equívoco mortal. Há cinco anos a Petrobras já possuía memória geológica comprobatória de que poderia existir grande bacia petrolífera mais abaixo dos atuais reservatórios. É fruto de competência e do alto nível técnico da empresa, pioneira mundial em extração de petróleo em águas profundas. É conquista de várias administrações na história da Petrobras, não podendo ser apropriada por marqueteiros de plantão como vitória de um governo.
Nesse tempo de conselheiros Acácios, é preciso respeitar a verdade. Daí a necessidade da propedêutica, que é o ensino que precede o ensino, balizando as origens do êxito da Petrobras na exploração de petróleo na vastidão do Oceano Atlântico, ao longo da costa brasileira. Em dezembro de 1974, a descoberta do campo de Garoupa, na bacia de Campos, iria gerar um dos maiores e modernos pólos de petróleo do mundo. Seguiu-se com a descoberta do campo Namorado em dezembro de 1975 e Enchova em junho de 1976. A tecnologia desenvolvida pela empresa na produção em águas profundas é recordista mundial. Fruto da competência técnica de profissionais que integram os seus quadros nas áreas de engenharia, geologia e afins. O pioneirismo da bacia de Campos agora se estende à bacia de Santos com novos e fascinantes desafios: retirar petróleo a 7.000 metros de profundidade, numa distância de 280 quilômetros da costa. Exatamente 33 anos depois da primeira descoberta.
Em um País de memória rala torna-se importante recorrer à história, para relembrar que essas conquistas estariam hoje em disputa em tribunais internacionais, não fosse a atitude assumida pelo governo brasileiro em 1970. Até então, a plataforma continental se restringia a 12 milhas. Ao estender essa plataforma para 200 milhas, um ato de coragem e soberania, assegurou a posse dessa riqueza, e outras ainda por se descobrir, ao patrimônio nacional. Não tivesse ocorrido essa mudança, as bacias petrolíferas brasileiras estariam fora da plataforma continental.
Igualmente por respeito à verdade histórica é fundamental registrar que a descoberta de petróleo no mar, na bacia de Campos, tem um único pai: o geólogo Carlos Walter Marinho Campos. Foi a sua determinação e coragem persistente responsável pela descoberta da maior província petrolífera do Brasil. Em 1973, demonstrou que havia indícios da existência de óleo na parte submersa do poço 1-RJS-7, na área de Macaé. Diretor da Petrobras na área de exploração, aprofundou as pesquisas em parte rasa da costa oceânica, com investimentos limitados. Visitando o Oriente Médio em viagem de observação, Carlos Walter Marinho Campos, ao retornar ao Brasil se defrontou com a determinação da empresa de que deveria abandonar o projeto pela inviabilidade da existência do petróleo.
Sua resistência em acatar a determinação foi fundamental para o Brasil. Possuía memória geológica, demonstrando que aquele poço que se revelava seco, logo abaixo se encontrava uma camada de calcário. No Irã e no Iraque, o grande geólogo havia observado que esse tipo de rocha de calcário produz grandes quantidades de petróleo. Assumiu o desafio e não acatou a determinação, ao contrário, aprofundou as pesquisas, descobrindo sinais indicativos de óleo na formação batizada de ?calcário de Macaé?. O prosseguimento dos trabalhos técnicos exploratórios culminou na extraordinária vitória com a descoberta do campo de Garoupa. A teimosia e indomável coragem de Carlos Walter Marinho Campos mudou a história do Brasil e da Petrobras, introduzindo a exploração ?offshore? (no mar), onde antes predominava a exploração ?onshore? (em terra).
Portanto, a verdadeira evolução da geologia de petróleo no Brasil nasceu há 33 anos e não como entende aquela ministra desinformada, pelo atual governo. Nesse tempo de tentativa de virar a história pelo avesso ao desejo dos ocupantes do poder central, é importante registrar a realidade verdadeira. Nos acontecimentos recentes da descoberta do campo mastodôntico da bacia de Santos chamado Tupi, há cinco anos já se tinha indicativo técnico de que poderia ter reservas em profundidades desafiadoras e exigentes de um novo padrão tecnológico.
Por fim, a matriz da nova descoberta petrolífera está umbilicalmente ligada ao pioneirismo de um brasileiro que, como diria Albert Camus, ?veio ao mundo para enfrentar desafios?. Não é fruto de nenhum paradigma, mas da evolução tecnológica e científica.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.