Ivan Schmidt
O presidente Luiz Inácio está determinado, e não lhe resta outra escolha, a rezar aos santos de sua devoção pessoal para que os dois meses e meio restantes até a realização das convenções partidárias (a lei estipula o final de junho) transcorram sem a desdita de novas explosões no interior do bivaque que, no início do mandato, se imaginava inexpugnável.
A última lacuna aberta no que restava do governo deu-se com a exoneração do ministro Antônio Palocci, ao se estabelecer o nexo absurdamente límpido entre a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, com a exposição pública do extrato de sua conta na Caixa Econômica Federal, e a volúpia com que o czar da economia exigiu do presidente da instituição, Jorge Mattoso, a perpetração desse bárbaro atentado às garantias individuais.
Como desgraça pouca é bobagem, sobretudo no governo Lula, algumas horas após a exoneração de Palocci começou a ganhar temerosa dimensão o informe de que o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, teria estado na residência do colega, onde fora para apresentar o afamado criminalista Arnaldo Malheiros. Antes que se conhecesse o pormenor, a imprensa havia noticiado que dois assessores diretos de Bastos, o chefe de gabinete e o secretário de Direito Econômico, também estiveram na casa de Palocci na noite em que o ministro recebeu o extrato do caseiro, a ele entregue por Jorge Mattoso.
Vai daí, prosseguiu a operação do esquema de fogo calculado da oposição, passando a figura de interesse a ser o ministro da Justiça e a decisão de convocá-lo ao Congresso para prestar esclarecimentos sobre o aranzel. Em princípio, a recusa partiu do próprio ministro, sob a alegação da inexistência de motivos para ser ouvido, mas logo veio o compromisso de comparecer depois da Páscoa. Sob o impacto da entrada em cena do advogado paulista e o fato de Bastos ter sido intermediário da visita, houve repentina mudança na intenção do ministro e ele se dispôs a antecipar a fala aos congressistas.
Então foi a vez de a oposição fingir não ter pressa em ouvir o ministro, preferindo mantê-lo na linha de tiro por mais alguns dias, obrigando os líderes do governo a fazer das tripas coração para desmentir os rumores de sua queda iminente, repetindo o melancólico papel que tiveram de representar até horas antes da exoneração de Palocci.
Lula deve começar a rezar logo e muito, porque o hipotético afastamento de um ministro da importância de Márcio Thomaz Bastos tornaria quase impraticável, senão extremamente difícil, a realização da proposta de conquistar o segundo mandato, por absoluta extinção de capital político. A esse panorama adverso terá de ser aditada a denúncia coletiva oferecida pelo procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, ao Supremo Tribunal Federal (STF), no último dia 30 de março, na qual aparecem os nomes de 40 indiciados pela CPMI dos Correios.
Será um verdadeiro suplício de Tântalo para o candidato Lula ao entrar em campanha efetiva, diante de cobranças feitas abertamente, explicar os porquês da presença na citada relação do principal ministro de seu governo – José Dirceu -, responsabilizado pelo procurador-geral da República como chefe supremo da ?organização criminosa? montada para amealhar recursos para futuras campanhas eleitorais do PT e seus aliados. Imaginemos a barafunda em que se enleará o candidato petista, pois os adversários serão contundentes em exigir explicações sobre as malfeitorias dos ex-ministros Luiz Gushiken e Anderson Adauto, da indigitada troica Genoino, Delúbio e Silvinho, escolhida a dedo por José Dirceu para comandar o partido, e que acabou ?seduzida? pelo poder de argumentação de Marcos Valério, na versão infanto-juvenil da senadora Ideli Salvatti.
Na mesma intensidade o candidato Lula será instado a dar explicações sobre o comportamento de ilustres personagens de seu arco político, também com direito a citação, não na lista de Schindler, mas na de Antônio Fernando. Líderes influentes de todos os partidos da base política do governo, alguns absolvidos pelo baixo clero, mas com enorme passivo a descoberto em relação à Justiça.
A desventura lulista chegaria ao ponto de não-retorno, caso o ministro Márcio Thomaz Bastos, sobre quem agora rondam suspeitas de ter participado da armação do dispositivo visando livrar da guilhotina a cabeça de Palocci, tome a decisão de pedir as contas. Se os congressistas conseguirem extrair dele as informações pretendidas e o próprio cumprir a tarefa com a responsabilidade cidadã que a conjuntura merece, a perspectiva tornar-se-á de tal forma insustentável que as murmurações – por enquanto – inaudíveis sobre o impeachment romperão as frágeis amarras que as refreiam.
Que isso seja apenas um pesadelo daqueles que custam a findar e do qual se desperta em nítido apavoramento. Não era sobre pesadelos, no entanto, e tampouco seriam essas as palavras adequadas que o autor desejaria transmitir no momento em que se evoca a sublimidade do sacrifício do Cordeiro de Deus. É uma pena…
Ivan Schmidt é jornalista.