Perdoar a idiotice

É de conhecimento geral que o Massachusetts Institute of Technology (MIT) está entre as escolas superiores mais prestigiadas nos Estados Unidos, assim como nos países culturalmente desenvolvidos do planeta, sobretudo pelo elevado número de sumidades que ocupam funções de imensa responsabilidade no exigente e exclusivo mercado dos dirigentes empresariais e executivos.

Um de seus professores mais requisitados pela mídia, o filósofo e lingüista Noam Chomsky, propositor de um pensamento econômico jamais subordinado ao que se denominou consenso de Washington, ou seja, as escrituras sagradas do neoliberalismo, afirmou no momento em que o incêndio de Wall Street assumia a conotação de tragédia, que “os mercados têm ineficiências conhecidas e inerentes”, e a principal “é a falha para calcular os custos de quem não participa de suas transações”. Segundo a observação do filósofo, mesmo com a intervenção salvadora do Federal Reserve (FED, o banco central norte-americano), seguida da reação instintiva do mercado no afã de estancar uma hecatombe devastadora, o desenrolar da crise deu visibilidade ao ponto de vista partilhado por pensadores de várias tendências quanto à incapacidade do mercado financeiro de subestimar o risco.

O professor do MIT avaliou que “a intervenção sem precedentes do Federal Reserve pode ser justificável ou não em termos estreitos, mas revela mais uma vez o caráter profundamente antidemocrático das instituições capitalistas, feitas em grande medida para socializar o custo e o risco e privatizar os lucros, sem uma voz pública”.

No final da semana, o presidente George W. Bush, que muitos apontam como maior culpado pela crise financeira do país, num sucinto comentário admitia que a realidade econômica vivida pelos Estados Unidos “não tinha precedentes” e, por essa razão fundamental, as providências anunciadas pelo governo refletiam com todo o rigor a gravidade do desafio. O secretário do Tesouro norte-americano, Henry Paulson, e o presidente do FED, Ben Bernanke, foram incumbidos de alinhavar durante o final de semana o plano apresentado ontem ao Congresso, logo definido pelas agências especializadas como “ousado e impetuoso”, visando dar liberdade ao Tesouro para comprar dos bancos os títulos lastreados em hipotecas e outros papéis desvalorizados ou de liquidez duvidosa, numa franca nacionalização das dívidas podres. Conforme entendeu o analista Robert Peston, da BBC, a operação vai “perdoar alguns dos maiores bancos do mundo por suas idiotices durante os anos de boom econômico”.

Uma das medidas paralelas desencadeadas na quinta-feira passada pelo secretário do Henry Paulson junto aos governos de outros países tem o objetivo de estimular a adoção de pacotes de emergência ao sistema financeiro, com a participação solidária dos bancos centrais, à semelhança do empréstimo de US$ 700 bilhões do Tesouro norte-americano ao sistema bancário diante da evidência escancarada da crise: “A desconfiança dos bancos de emprestar dinheiro uns aos outros e aos clientes”, como intuitivamente concluiu Peston.

No entanto, o governo da Inglaterra tomou a iniciativa de tornar pública a discordância quanto às medidas enunciadas pelo titular do Tesouro norte-americano. Um porta-voz do gabinete britânico afiançou que o governo tem alternativas próprias para lidar com a crise.

Com posição forte no G7, a primeira-ministra alemã, Ângela Merkel, não destoa da opinião de Londres e como registrou o noticiário internacional, diante da sugestão de compartilhar a cobertura dos prejuízos qualificou de irresponsável o comportamento das autoridades econômicas dos Estados Unidos na concessão de espaço ilimitado para as operações de suas importantes instituições financeiras. Mesmo assim Paulson continua a passar o chapéu entre as economias industrializadas, apesar do desabafo: “Odeio ter de fazer isso, mas é a melhor alternativa. Esse é um momento que traz muita humildade para os Estados Unidos”. Bota humildade nisso!

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