Pensadores econômicos

Nesse tempo de chuvisco miúdo no debate econômico nacional, macroeconomia e pensamento econômico são marginalizados, predominando os palpiteiros da economia, o jornal Valor Econômico, no seu ?Suplemento Fim de Semana? n.º 358, rompe a tradição. Após ouvir 63 economistas, de várias escolas e tendências, para a escolha, pelo voto, do ?economista brasileiro mais importante da história?, o resultado foi consagrador para dois pensadores econômicos que colocaram as suas inteligências para melhorar a sociedade.

Coincidentemente os dois escolhidos são, por graduação acadêmica, egressos de faculdades de Engenharia e Direito. O mais votado foi Mário Henrique Simonsen, com 27 votos, engenheiro. O segundo, Celso Furtado, com 25 votos, advogado. Como afirma a publicação, são duas unanimidades. Tornaram-se ícones pela especialização na área econômica em um tempo em que a economia era um assunto fascinante e desafiador para quem se interessasse pelo progresso e pelo futuro da sociedade humana. Eram formuladores importantes e com eles se tinha o que aprender. Internacionalmente, independente da linha ideológica que professassem, economistas do nível de Paul Samuelsen, Milton Friedman, John Maynard Keines, John Kenneth Galbraith, Paul Sweezy, Joan Robinson, Raul Prebisch, Gunnar Myrdal, Ota Sik, dentre outros, exerceram enorme influência na formulação e nos trabalhos de Mário Henrique Simonsen e Celso Furtado.

Com concepções econômicas diferenciadas, os dois, nos momentos em que serviram ao Estado brasileiro na condição de ministros, foram formuladores de projetos onde o desenvolvimento era pedra angular. Simonsen nunca foi um ortodoxo econômico e quem afirma é Roberto Campos: ?Nunca foi monetarista como eu e o Gudin. Era mais um keynesiano moderadamente intervencionista?. Ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga completa: ?Foi um brilhante formulador do crucial Paeg (Programa de Ação Econômica do Governo Castelo Branco) e um excelente ministro. Vencido na disputa de poder que precedeu a década perdida, contribuiu em muito para o debate público até o fim dos seus dias, de maneira brilhante, clara, bem-humorada e desinteressada. Foi de Simonsen o diagnóstico inicial do problema da inércia da inflação, por ele denominada realimentação inflacionária. Como educador, formou gerações de economistas, sem dogmatismo?.

O diretor da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, Yoshiaki Nakano, sobre Furtado constata: ?Foi ele quem deu a grande interpretação do Brasil e esclareceu de forma magistral o problema do subdesenvolvimento?. Já a professora Leda Paulani, da Economia-USP, enfatiza: ?Furtado foi o mais importante economista brasileiro porque, adotando a perspectiva keynesiana de demanda agregada numa época em que era pouco difundido o conhecimento da teoria de Keynes, construiu uma base para pensar a economia do País da qual até hoje não se pode abrir mão. Pensou o Brasil do ponto de vista da construção de uma nação socialmente homogênea e arrolou as providências que deveriam ser tomadas. Pena que não foram seguidas?.

A contribuição no debate da política econômica deixada por Simonsen e Furtado é parte integrante da história. No governo Goulart, em 1963, foi de autoria de Celso Furtado o Plano Trienal de Desenvolvimento, onde o combate à inflação, rígido controle nos gastos públicos e prioridade nos investimentos na infra-estrutura era a sua base, foi combatido pelo próprio governo, obrigando a sua demissão. No governo Costa e Silva, o capítulo de macroeconomia do Programa Estratégico de Desenvolvimento, Mário Henrique Simonsen foi o autor, sendo em seguida dispensado de integrar o governo. O homem forte da economia seria Delfim Neto. Somente em 1974 se tornaria ministro da Fazenda no governo Geisel e no Planejamento, por poucos meses, no governo Figueiredo. Deixou marcantes livros na área da economia.

Já Celso Furtado foi um pensador econômico múltiplo. Exilado depois de 1964, foi dar aula nas Universidades de Yale, Cambridge e Sorbonne, onde se aposentou após duas décadas, na condição de docente titular na França. Autor de obra disseminada por todo o mundo, onde a economia do desenvolvimento, o sistema financeiro internacional, os aspectos regionais do desenvolvimento e a crítica à teoria econômica tradicional são pontos marcantes nas suas reflexões. O economista Ricardo Bielschowsky, na mesma edição n.º 358, do suplemento do jornal Valor Econômico ressalta: ?São cerca de 30 livros publicados em 15 idiomas. Há 15 anos, estimou-se que havia sido vendido 1,5 milhão de exemplares, o que significa que já se deve ter alcançando, hoje, mais de 2 milhões e o número total de leitores chegue a 10 milhões no planeta (via empréstimos, cópias, etc.). Isso faz de Furtado o economista e cientista social latino-americano mais lido no mundo?.

Infelizmente, hoje o que motiva grande parte dos economistas é a discussão dos mercados futuros, das consultorias menores, sobre o que pode acontecer com a taxa de câmbio e o mercado de capitais. Simonsen e Furtado foram pensadores da economia, a antítese dessa vulgaridade mercantilista monopolizadora de um falso saber econômico, que vem predominando no Brasil.

Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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