A quinze dias das eleições e sem eventos de magnitude que possam vir a alterar o panorama eleitoral, a vitória do presidente Luiz Inácio já no primeiro turno se torna uma projeção bem razoável. O programa eleitoral de Geraldo Alckmin, até o momento, não afetou a posição do candidato governista. O indicador mais forte para a hipótese que vai ganhando corpo é a tendência de irreversibilidade do voto de Lula nas classes pobres. Impressiona, aliás, a distância que separa os votos dos pobres dos votos da classe média, que chega aos 20 pontos quando se inserem na comparação os eleitores que ganham até R$ 700. Geraldo Alckmin chega a perder de até 4 a 1 na classe E, que ganha até um salário mínimo, e de 3 a 1 na classe D, situada entre um e dois salários mínimos. Como as famílias de classe média somam apenas 15 milhões, ou 31% do total de famílias brasileiras, deduz-se que o meio social é um espaço estreito dentro da oceânica geografia que abriga as margens sociais.
A grande vantagem de Lula, principalmente nas regiões nordeste e norte, obedeceu a uma estratégia engendrada com apuro maquiavélico. Ali se concentra a população mais carente do País, alimentada historicamente com migalhas do assistencialismo e sempre disposta a responder satisfatoriamente aos apelos eleitoreiros, cujo foco é menos voltado para a mente e mais para o estômago. Ampliar o programa Bolsa Família de 8 milhões para mais de 11 milhões de famílias, em menos de seis meses, foi um tiro no alvo eleitoral, mais certeiro que as bombas de rótulos extravagantes, como mensaleiros e sanguessugas. Afinal de contas, discurso contra a roubalheira não elege mais ninguém, desde os tempos em que Landulfo Caribe fez dele slogan para derrotar o candidato da Arena e se eleger prefeito de Jequié, na Bahia, nos heróicos tempos do velho MDB: ?Quem roubou, roubou. Quem não roubou, não rouba mais?. Nem Heloísa Helena, travestida de Landulfo, consegue animar o povão a vestir o manto da dignidade.
Os partidos políticos, por sua vez, viraram Arenitos e Arenões. Sendo assim, a palavra moralizadora e o discurso do bom mocinho não vingam tanto quanto o recado do toma-lá, dá-cá. ?Você gosta de levar vantagem em tudo, certo?? A insinuação do jogador Gerson, que deu nome à lei da vantagem, nunca esteve tão viva no imaginário popular. O cigarro Vila Rica, propagado pelo tricampeão do mundo a 18 cruzeiros o maço, na década de 70, espalha nicotina até hoje, formando círculos de fumaça que contaminam todos os ambientes. Não há como deixar de reconhecer: são poucas as narinas políticas que respiram, hoje, o ar puro das montanhas. Para piorar, as narinas sociais também se entupiram com a fumaça do ?rico? tabaco.
Da mesma forma, urge reconhecer que se amplia o fosso entre classes sociais no País. Se os pobres durante o primeiro ciclo Lula elevaram seus padrões de vida, a partir de modesta provisão financeira mensal, as classes médias desceram de patamar. Estudos e pesquisas dão conta da erosão e até proletarização da classe média na última década. Teria perdido ela um terço de sua renda, com mais de 2 milhões de pessoas saindo de sua condição, estimando-se, ainda, que mais de 4 milhões de pessoas tenham abandonado planos privados de saúde. O rebaixamento da classe média, vale lembrar, avançou na esteira do Plano Real, quando os efeitos da estabilização foram agravados pela política cambial e conseqüente desvalorização da moeda. Por conseqüência, ela votou em peso em Lula em 2002. Sente-se, hoje, decepcionada por ter sido mais rebaixada. Os analistas econômicos apontam a estagnação ou retração do PIB como fator responsável pela redução de seu poder de compra. Dos 57 milhões de brasileiros de classe média, em 2002, calcula-se que hoje esse número seja de 52 milhões.
Nesse cenário, espraia-se o pensamento de que Lula, se eleito, o será passando por cima da classe média, onde se abrigam os maiores conjuntos de formação de opinião. Portanto, estaria derrubada a tese de que, para ganhar, um candidato à Presidência da República precisa contar com o apoio dos formadores de opinião. Temos outra leitura para o argumento. Nela, o fator tempo é a chave para abrir o entendimento. Se Lula ganhar sem o apoio do sistema de opinião é porque soube bem administrar o tempo. Ele mediu a extensão das marolas criadas pela pedra jogada no meio da lagoa – o clamor de indignação da classe média – e concluiu que seu eco não chegaria forte às margens sociais antes de 1.º de outubro. Ou seja, calculou que o programa Bolsa Família amplificado poderia provocar mais barulho no curto espaço de campanha do que o pacote ético que as oposições ainda tentam arrumar de maneira desajeitada. Calculou bem. Tem a caneta na mão e conhece a ?alma do povão?.
Neste ponto, vale inferir: seja qual for o presidente, o Brasil entrará em 2007 com o pé direito nas margens e o pé esquerdo no centro. Juntar os dois pés não é tarefa de fácil execução e ainda exige tempo.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.