Ivan Schmidt

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Aos verdadeiros militantes do PMDB, se porventura houvesse alguém com tamanha capacidade de crer nas artes do encantamento, ter-se-ia revelado toda a extensão da trama que descambou na coligação com o PSDB no plano estadual, com vistas à sucessão do governador Roberto Requião? Não podemos tratar os militantes do nosso partido como menores a quem cumpre preservar da verdade para manter intacta a sua ?fé?. A frase foi escrita pelo antigo filósofo marxista francês Roger Garaudy e se encontra no livro Toda a verdade (Nova Fronteira, RJ, 1985), exatamente para explicar que não é possível tratar adultos como se crianças fossem. Ele defendia a tese que os militantes do então Partido Comunista Francês (PCF), que mais tarde trocou de nome, como tantos outros mundo afora, entre eles o PCB, ora batizado de Partido Popular Socialista (PPS), conhecessem toda a verdade sobre o rotundo fracasso do comunismo na União Soviética e, logo, nos demais países.

O parágrafo de abertura aí está para se entender – se possível – qual teria sido a fórmula milagrosa capaz de cimentar a composição entre PMDB e PSDB e o lançamento da dobradinha Requião-Hermas, sabendo-se previamente que ambos os partidos se digladiaram o tempo todo na Assembléia Legislativa, cabendo ao PSDB a vanglória de envergar a faixa de principal esteio do bloco oposicionista.

A dúvida sobre o que foi revelado aos militantes e em que medida, portanto, tem razão de existir, pois ao mesmo tempo em que o PMDB abriu os braços para receber parte do tucanato local, cuja transmigração se alicerçou na confiança de obter um forte palanque para Geraldo Alckmin no Paraná, o regimento comandado pelo governador tratou de abrir um comitê suprapartidário Lula-Requião, tratando com indisfarçável ambigüidade um ponto sensível no aparente acordo com os tucanos. Vendo pelo prisma imposto ao partido pela ala governista, anulado o esforço feito para o lançamento de candidato próprio à Presidência da República, do qual Requião foi avalista, o diretório regional do Paraná seguiu a cartilha de Sarney e Renan Calheiros, conquanto a tese vencedora consistia em estimular o partido a trabalhar pela aliança mais conveniente nos estados com probabilidade real de eleger o governador, sem a menor preocupação com patranhas e questiúnculas de qualquer sorte.

Ora, a tal aliança informal permitida por uma legislação eleitoral mais picotada que cartão de ponto no final do mês, com a ressalva de ser factível unicamente aos partidos sem candidato a presidente, nem por isso lhes exigiu a obrigação de retribuir o apoio ao candidato dos partidos com quem virtualmente se coligassem, se é que o sofrido leitor conseguiu atinar com o fio condutor e deslindar a enrascada. Destarte, o PMDB poderá a qualquer momento alegar aos embasbacados tucanos que os planos e convicções sofreram inesperada mudança, mesmo porque em política não se adota o princípio retilíneo da loteria zoológica (vale o que está escrito) e, convenhamos, onde antes se enxergava compenetrada zebra, num passe de mágica, bem se poderá vislumbrar uma ridente hiena…

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Há quem insista, porém, na tecla que Requião terá de dar preferência à candidatura de Geraldo Alckmin e fazer campanha a seu lado, pois somente com a profissão de fé nesse compromisso passaria a contar com a contrapartida de extrema valia do prestígio eleitoral do prefeito Beto Richa, a rigor, um dos únicos tucanos paranaenses a possuir capital político próprio. E tantos outros, de fato, merecerão com certeza a dádiva divina da existência para testemunhar a inigualável cena de Requião pedindo votos para um quadro político cevado na vulgata do neoliberalismo, marreta permanente de seu (agora) ex-corrosivo e desenxabido discurso nacionalista.

Como diria Josef Nório Sculhoff, catedrático em ocultismo e adestrador de pulgas, plagiando sem pudor a sagacidade mineira, em política a coisa menos alarmante é ver um boi cruzando os ares.

Ivan Schmidt é jornalista.

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