Tarcísio Vanderlinde

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Como em outras épocas, as discussões do nosso tempo são subjetivas e podem variar com a visão de mundo e as necessidades de cada pessoa. Assim, doença, aposentadoria, velhice, desemprego, educação, migrações são questões que perturbam as pessoas e estabelecem parâmetros para reflexões.

Alguns assuntos, no entanto, são mais universais e costumam interferir em nosso cotidiano, sem que muitas vezes nos demos conta. Depois do desmantelamento da União Soviética e da queda do Muro de Berlim, surgiu a ideologia do ?fim da história?, que acabou se tornando um dos parâmetros para grandes discussões que se seguiram. A idéia defendida pelo norte-americano Francis Fukuyama pregava o triunfo do liberalismo econômico e político sobre todas as outras formas de articulações socioeconômicas. E não era apenas o fim da Guerra Fria, ou a consumação de um determinado período da história, mas o fim da história como tal, o ponto final da evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal ocidental como forma final de governo.

Este foi um tipo de pensamento que estimulou a chamada economia de mercado e fez com se enfiasse goela abaixo dos brasileiros, por exemplo, as monumentais privatizações que ocorreram nos dois governos FHC. Mas este é apenas um exemplo da disseminação desse tipo de idéia. A história que se desenvolveria depois da invenção de Fukuyama não se sustentaria, embora o autor continuasse batendo o pé com a idéia de que a história teria acabado, sim. Para não desdizer tudo que escreveu, ele costuma inventar novas teses como a dos ?Estados fracassados?, para justificar as recentes intervenções militares americanas no mundo.

Na verdade, o modelo de desenvolvimento que muitos ainda acreditam ser o melhor para a humanidade trouxe mais desgraça e desigualdade do que felicidade. A competitividade se revela cedo ou tarde destrutiva. Exacerbam-se as desigualdades e proliferam em muitos países da África campos de refugiados que acabam sendo esquecidos por aqueles que ainda se consideram na civilização.

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O modelo que sustenta a economia do mundo é de fato predatório e faz levantar opiniões de que algo precisa ser feito. Da contestação emergem novos paradigmas, como é o caso da ?ecologia profunda? do físico Fritjof Capra. Refere-se a uma mudança que requer uma expansão não apenas de nossas percepções e maneiras de pensar, mas também de nossos valores, que efetivamente são muito diferentes daqueles preconizados pelo conto de Fukuyama (Capra, F. – A teia da vida – Cultrix, 2001).

Mas não é só a condição ambiental que está se deteriorando pela cultura do excesso. A questão é o que fazer com o ?refugo humano? que a linha de montagem conhecida como ?globalização? está produzindo. Na busca de um lugar seguro na roda viva da economia global, os poucos vencedores escondem a dura realidade dos que perdem. É por isso que Zymunt Bauman, um dos maiores críticos da modernidade, afirma: ?Nosso planeta está cheio!?. Não somente do ponto de vista físico e geográfico, mas social e político. Hoje são postos em movimento enormes contingentes de seres humanos destituídos de meios de sobrevivência em seus locais de origem. De acordo com o escritor, já não há mais espaço social para os párias da modernidade, os inadaptados, expulsos, marginalizados, o lixo humano produzido pela sociedade de consumo (Bauman Z. – Vidas desperdiçadas – Jorge Zahar, 2005).

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Como se pode ver, além de ficar claro que a história não acabou, fica igualmente evidente que o suposto triunfo do liberalismo fez emergir uma situação que de fato parece não servir para a humanidade.

Tarcísio Vanderlinde é professor da Unioeste, no campus de Marechal Cândido Rondon.