Gaudêncio Torquato
O mestre Fernando de Azevedo, estudioso do caráter nacional, ensina que o brasileiro agrega três características: bondade, reserva e desconfiança. Generoso ao extremo, vota em gente séria, mas oferece as sobras para mensaleiros, sanguessugas, perfis polêmicos como Collor ou extravagantes como Clodovil. Afinal, no mosaico étnico-cultural brasileiro, cabe a fusão harmônica de ingredientes mentais, com votos conscientes, racionais, emotivos, agradecidos, cacarecos, debochados e histriônicos. A afetividade e a irracionalidade, que puxam a alma nacional para a improvisação e a imprevidência, não apagam, porém, a tintura de desconfiança, que salta aos olhos quando se vê diante de pessoas que querem ludibriá-lo. A generosidade dá lugar às paixões violentas. Coloque-se, agora, no menu o recheio de escândalos que, há mais de ano, batem na cachola dos eleitores, adicionando-se o caldo grosso do dossiêgate, e se chega a uma razoável idéia para explicar a tipologia do voto no país.
A corrupção, vale dizer, tornou-se banalizada, a ponto de o eleitor nivelar por baixo a classe política, sobrando espaços de admiração apenas para poucos, entre os quais o próprio presidente da República, símbolo maior da dinâmica social brasileira. Graças ao carisma, Lula tornou-se um perfil que paira sobre o PT, partido manchado. Mas nenhuma cultura política, por mais destrambelhada que seja, resiste ao bombardeio de uma mídia que estampa montes de cédulas de reais e dólares arrumados pelo PT para comprar um dossiê contra o candidato José Serra. O feitiço dos ?aloprados? virou contra o feiticeiro. Nesse ponto, entra em cena o velho Pavlov, com a receita dos reflexos condicionados, centrada em conceitos como excitação, intensidade de atenção, reações emotivas de interesse e reflexos de orientação. Interpretação da psicologia: a excitação gerada pela dinheirama despertou a atenção das massas, que ganharam reflexos de orientação a respeito dos candidatos. Caiu lama na roupa do presidente. As classes médias, tomadas de indignação, ainda mais, pelo fato de anotarem que não há respostas satisfatórias para as denúncias envolvendo o PT.
Explica-se, assim, o clima de divisão do eleitorado que se observa nesse segundo turno, que não zera tudo, como se diz. A campanha continuará sob o resultado dos primeiros 45 minutos do jogo. Esse resultado aponta para vantagem de Lula, mas a curva do opositor é ascendente. Chega a vez da aritmética eleitoral. Os tucanos José Serra e Aécio Neves ganharam bem nos dois principais colégios eleitorais do país, São Paulo, com 28 milhões de votos, e Minas Gerais, com 13 milhões. Serra ganhou com 57,93% dos votos válidos e Aécio, com 77,03%. Alckmin teve nos dois estados, respectivamente, 54,2% e 40,62%, e Lula, 36,77% e 50,8%. Se Geraldo, com a força de Aécio, conseguir mais 10% em Minas, meta bem razoável, e alcançar a mesma votação de Serra em São Paulo, ultrapassará Lula. No Rio, terceiro colégio eleitoral, Geraldo contará com o apoio do polêmico Garotinho, que apóia Sérgio Cabral, que apóia Lula. Os eleitores de Denise Frossard votarão mais em Alckmin. Nos três estados do sul, o tucano suplantou Lula em 20,39%. Considerando-se o favoritismo de Yeda Crusius (RS), que receberá os votos do PMDB de Rigotto, e do favorito Luiz Henrique (SC), o desempenho de Geraldo poderá melhorar no sul. Mas Lula tem sempre a vantagem de contar mais com os votos das massas. Prova disso é a vantagem que carrega depois do primeiro embate televisivo.
Os maiores cabos eleitorais de Lula estão no nordeste: Jaques Wagner, na Bahia, que ganhou o governo, e Ciro Gomes, no Ceará, com a maior votação proporcional do país, que lutarão para expandir o voto lulista. Observe-se, porém, que os correligionários do candidato do PSDB na região permaneceram enrustidos, temendo a derrota no primeiro turno. Agora, com a campanha federalizada, serão obrigados a tomar partido. Ademais, o índice de Lula no nordeste parece bater no teto. No centro-oeste, a crise da agricultura foi responsável pela derrota de Lula em cinco estados, inclusive no Acre, território petista. Diz-se que Lula tentará reconquistar as classes médias e entrar de sola em São Paulo. Não se recompõe confiança em 20 dias. A sabedoria popular ensina que não há força capaz de mudar o rumo do vento. Os pacotes de dinheiro do dossiêgate forçam o vento na direção oposta a Lula. Mas ele poderá demonstrar a velha regra da política: tudo é possível. Afinal de contas, pode mobilizar ministros para a campanha e liberar recursos. Adivinhem o discurso que ouviremos: ?Nunca neste país alguém venceu o vento. Fui o primeiro?. É possível.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.