A decisão de subir a taxa básica de juros (Selic) não surpreendeu analistas, mercado, governo e oposição. O que deixou a todos aturdidos foi a agressividade do Comitê de Política Econômica (Copom) do Banco Central (BC), que subiu mais que o esperado, levando o índice de 12,25% para 13%. Tudo para conter a inflação, que está em alta.
A preocupação do presidente do BC, Henrique Meirelles, e dos seus parceiros no Copom, é bastante razoável. As pesquisas internas e as avaliações do mercado apontam para uma taxa de inflação fora da margem definida na meta. A última prévia foi de 6,53%, acima do limite de 6,5%, dois pontos acima da meta oficial, que é, portanto, de 4,5%.
E isto preocupa a equipe econômica do governo federal, mesmo que os ministros Paulo Bernardo (Planejamento) e Guido Mantega (Fazenda) e o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva garantam que a inflação não vai voltar a assolar a população.
Mas, apesar de eles não irem aos mercados, pagarem contas de luz e água ou abastecerem seus carros, ministros, presidente e membros do Copom sabem que os preços estão aumentando. Nas gôndolas, é cada vez mais complicado para os cidadãos comprarem seus litros de leite, seus quilos de farinha e carne, suas garrafas de refrigerante, seu arroz e feijão. A cesta básica está mais cara, e não há sinal mais claro para a população de que a inflação está voltando.
Por isso a ação “terapêutica” do Copom. A reação foi clara. O mercado sentiu o baque, o dólar chegou ontem ao patamar mais baixo desde que foi introduzido o câmbio flutuante e há um clima de expectativa e serenidade entre os investidores. Eles sabem que o Brasil continuará atraindo negócios, mas talvez em um ritmo mais lento nos próximos meses. Eles só não entenderam o porquê de tamanha força na subida da taxa Selic.
Mas talvez haja um motivo. Pouco antes do anúncio do aumento dos juros, o presidente Lula afirmou estar preocupado. Com a inflação? Não, com a possibilidade de o jogador Dentinho, do Corinthians, jogar no futebol europeu. Quem sabe transtornado com tal possibilidade, ele decidiu pedir a Meirelles para segurar a taxa básica.