Ivan Schmidt

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Talvez o mais desastroso baque no governo Lula deu-se com o visível constrangimento advindo da exoneração de Antônio Palocci, vítima da enrascada de seus diletos amigos e antigos assessores na Prefeitura de Ribeirão Preto, que armaram na capital da República a arapuca – a fatídica mansão do Lago Sul – freqüentada com certa assiduidade pelo ministro e que resultou em seu afastamento do governo.

O próprio Palocci havia revelado na sexta-feira da semana passada uma das facetas curiosas da política brasileira: a economia permite ao País voar em céu de brigadeiro, ao passo que o ministro da Fazenda imagina-se lançado ao terceiro ou quarto círculo do Inferno ardente retratado por Dante Alighieri na Divina Comédia.

Pois o ministro mais forte do governo Lula, a quem o presidente dirigiu palavras afetuosas e emocionadas no discurso de despedida, que mentira à CPI dos Bingos ao declarar que jamais estivera na casa alugada pela patota da República de Ribeirão Preto e, depois, ao próprio Lula, com quem tinha o dever da lealdade irrestrita, teve sua presença no referido local confirmada pelo caseiro Francenildo Santos Costa. Faltou aos ex-assessores do antigo prefeito, homem saudado por ninguém menos que o secretário do Tesouro norte-americano, John Snow, como a ?voz da razão na economia mundial?, para dar de barato, o cuidado elementar de levar na bagagem um empregado em quem pudessem depositar total confiança.

Esse erro primário, característico do embotamento mental dos que se imaginam acima da moral e dos bons costumes, acabou se tornando o calcanhar-de-aquiles do ministro. Foi ótimo que tivesse acontecido assim, porquanto o País ver-se-á livre de um esquema pernicioso revelado pelo depoimento de um desses enfatuados ex-assessores – Rogério Buratti – inteiramente comprovado por investigações da Polícia Civil do Estado de São Paulo. Segundo Buratti, durante parte do segundo mandato de Palocci como prefeito houve superfaturamento dos valores contratados com a empresa responsável pelos serviços de coleta de lixo. Palocci passou a receber, então, uma ajuda não contabilizada de R$ 50 mil mensais da referida empresa.

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Fidelíssimo executor da política recomendada pelas instituições multilaterais da economia globalizada e, por isso, aclamado pelo mercado como homem acima de qualquer suspeita, Palocci não foi obrigado a deixar o governo por eventuais falhas na condução de sua tarefa de impor com férrea disciplina o arrocho fiscal, o superávit primário e os juros estratosféricos. Tanto que logo se esfumaram as especulações quanto à dispensa de Henrique Meirelles da presidência do Banco Central, claramente aboletado na função sob a competente chancela da banca internacional. De resto, um sinal emitido pelo mercado de que não importa quem seja o executor da política econômica, conquanto se possa influir diretamente na escolha do presidente do Banco Central.

A versão local para o entendimento assumiu a forma do compromisso de que Meirelles passará a despachar unicamente com o presidente da República, e que o ministro Guido Mantega atenuaria a catilinária sobre a queda acelerada da taxa Selic.

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A exoneração inevitável ocorreu em função do envolvimento do ministro com os bandalhos de Ribeirão Preto, clientes preferenciais da agenda de Jeany Mary Córner e da insistência em negar suas incursões àquela que de agora em diante vai pesar nas elucubrações do ex-ministro como autêntica réplica planaltina da casa de Usher, celebrizada no conto genial de Edgar Allan Poe.

Com a monstruosa decisão de quebrar o sigilo bancário de Francenildo e vazar cópias do extrato de sua conta na Caixa Econômica Federal para a revista Época, crime que o exonerado presidente da instituição, Jorge Mattoso, atribuiu ao superior na cadeia de comando do governo, o próprio ministro da Fazenda, a vaca marchou célere para o brejo. O serviço prestado por Jorge Mattoso no depoimento à Polícia Federal apressou o parto doloroso vivido pela nação na última semana. Seu depoimento corajoso, na avaliação dos agentes federais que o ouviram, teve o mesmo impacto do desafio feito por Roberto Jefferson a José Dirceu, a quem sugeriu, na ocasião, deixar imediatamente a chefia da Casa Civil.

Ante a explosão da notícia sobre o teor do depoimento de Mattoso, com a revelação de que os extratos do caseiro foram entregues pessoalmente a Antônio Palocci, em sua residência, o ministro que até então negara ao presidente estar envolvido na questão, emitiu nota solicitando um eufemístico ?afastamento? do cargo. O Planalto, no entanto, cumpriu o dever de enquadrar o assunto com o rótulo adequado, anunciando a exoneração do ministro. Como o companheiro, ainda assim, fosse merecedor de tratamento amigável a ele se concedeu a indulgência do ?a pedido? no texto do decreto publicado pelo Diário Oficial da União.

A era Palocci no governo Lula terminou. Agora o ex-ministro passa a enfrentar o assédio do delegado seccional de Ribeirão Preto, que anseia ter com ele uma conversinha sobre lixo. Apesar do mau cheiro…

Ivan Schmidt é jornalista.