Gaudêncio Torquato
Pergunta recorrente em todos os espaços: Lula tem condições de se reeleger? Pelo menos quatro condições se impõem para que alcance essa meta: sair limpo do mar de lama aberto pelo PT; fazer o milagre de multiplicação dos pães nos 13 meses que lhe restam; recompor a base política e reconquistar as classes médias; e adquirir apetência para governar. Mas há um porém: certas condições escapam a seu controle. Vejamos.
Este segundo semestre será embalado pelo rufar de tambores das três CPIs em curso. O esforço dos presidentes das casas congressuais não será suficiente para o encaminhamento de uma agenda positiva. Aspectos pontuais, como a questão do desarmamento, serão nuvens passageiras. Um clima pesado permanecerá no ar, misturando expectativas e interrogações. A perspectiva de cassação de parlamentares, em quantidade aceita pelos partidos, algo entre 15 e 20, não criará catarse de proporções suficientes para amansar a indignação social. Sob os escombros do PT, prevê-se nos próximos meses a administração cozinhando modesto feijão com arroz, um presidente tentando agrupar rebanhos perdidos, partidos tontos à procura de um rumo e cidadãos distanciados da classe política.
A crise aprisiona a administração (economia à parte) e o sistema político como um todo. A suspeita paira no ar. Até as eleições não haverá tempo para a reengenharia de colagem dos cacos quebrados. Ao término das investigações haverá um esforço para arrumar a casa. O primeiro semestre de 2006 será dedicado à reaproximação com as bases, implicando menos expediente no Planalto e mais tempo nas planícies eleitorais. Ao PT, sobretudo, restará a tarefa de Fênix de renascer das cinzas. Talvez deva inspirar-se no conselho que o padre Joseph Lebret deu, em 1957, aos que gostariam de vê-lo tirar São Paulo do caos em que se encontrava. Coordenou a pesquisa feita pela Sagmacs sobre a cidade, mas se recusou a elaborar um plano para o futuro da metrópole. O argumento: seria mais fácil destruir São Paulo e construir outra capital sobre os destroços. Criar um outro PT, eis a alternativa de Tarso Genro.
Aos partidos políticos, urge criar ou recriar um ideário, à luz das demandas sociais. O conceito de partidos que pegam tudo (catch-all parties, como os ingleses os chamam), vendendo-se nos subterrâneos da política, agoniza. Partidos de massa, símbolos dos carcomidos tempos da luta de classes, e que tanto inspiraram o PT, também desaparecem ante a afiada lança dos grupos organizados, que não mais esperam pelas recorrentes promessas da democracia representativa, como o combate ao poder invisível, a educação para a cidadania e a justiça para todos, que Bobbio tanto lembrava. Caso pretendam consertar o telhado esburacado, as siglas nacionais haverão de se reconstruir com a argamassa dos núcleos sociais, onde se abrigam classes médias, profissionais liberais, pequenos e médios empresários e comerciantes, defensores do meio ambiente, esferas étnicas, universo estudantil e minorias, entre outros.
Menos ideologia e mais pragmatismo – eis o receituário dos novos tempos. Por essa razão, a opção por matizes de esquerda, centro e direita -cromatismo que ainda encanta os olhos de alguns neo-ideólogos da era moderna – só terá sentido se estiver conectada a estratégias para atender, no curto, médio e longo prazos, às expectativas sociais. E Lula, como entra no figurino? Como um ator populista ensaiando a volta ao palco, depois de peça não elogiada pela crítica. O ator voltará a conquistar o coração da sociedade? As condições já foram postas. Este primeiro estágio mostra que o presidente não estava preparado para governar. Liderar um sindicato, fundar um partido, ganhar a Presidência, viajar pelo Brasil, abraçar o povo, recorrer a metáforas e à origem humilde não são qualidades suficientes para comandar um país. Ademais, Lula não gosta de governar. Gosta mesmo é de discursar. E, de tanto se exercitar, desenvolveu um amor-próprio tão forte que o mundo real é coisa menor. Voltaire conta a historinha do maltrapilho de Madri, sujeito bem moço, que pedia esmolas com grande empáfia. Um transeunte lhe disse: ?Você não tem vergonha de exercer essa atividade, quando pode trabalhar??. E ele: ?Meu caro, peço-lhe esmola, e não conselhos?. Por amor a si mesmo, pedia esmola e não permitia que ninguém lhe sugerisse nada. Lula não admite isso. Diz que vai continuar viajando, freqüentando palanques e azucrinando as elites.
Confia no estoque de carisma. Se não se livrar da arapuca em que o PT o colocou, Lula não ganhará festas na reta final. José Américo de Almeida, ministro de Getúlio, governador da Paraíba, autor de A Bagaceira (1928), proclamava: ?Paraibano não bate palmas no meio do governo. Só bate palma no começo e no fim. No começo, de esperança. No fim, de pena?. No início, a esperança venceu o medo. Palmas para o presidente petista. Do meio para o fim, a esperança está indo embora. Que pena. Palmas muito sentidas. Ele merece.
Gaudêncio Torquato, jornalista e professor titular da USP e consultor político.