Pagar fiança ou mostrar a verdade?

Provocou discussão, recentemente, a decisão do pai que não pagou a fiança que evitaria a prisão do filho, preso por dirigir alcoolizado. Você, pai, mãe, faria diferente? Muitas vezes, permitir a nossos filhos o aprendizado, mesmo por meio do sofrimento, pode ser a melhor solução. Explico. Em um café, naqueles invernais finais de tarde curitibanos, vejo um casal com um filho que deve ter por volta de 2 anos. Ele pede um chocolate, o pai diz não, ele começa a choramingar, o pai fala com voz macia e lhe dá uns pacotinhos de açúcar. O menino brinca com os pacotinhos por alguns instantes, mas em seguida volta a pedir para a mãe o chocolate. Em nenhum momento os pais explicam que estão ali para lanchar ou o porquê de ele não poder comer, naquele momento, seu chocolate.

Dizem que o garçom trará o chocolate, que está sendo preparado. Parecem esperar, com isso, tranqüilizar o filho. Parecem querer que não sinta nada de negativo, mas ele, enquanto isso, espera convicto que venha rapidamente seu chocolate.

Evidentemente, esse comportamento dos pais, sem uma adequação com a realidade e a possibilidade da família naquele momento, cria uma falsa expectativa no filho, isto é, dá um sentido à vontade, nomeando-a. Dá à vontade do filho uma verdade, criando na criança uma necessidade, que deverá ser sempre satisfeita pelo outro, incontestável e imutável, sempre!

Penso que esses pais sejam bons pais, pelo modo com que olhavam para o filho e o atendiam. Mas seu comportamento, naquele momento, me lembrou o que já disse Cloè Madanes, psicoterapeuta sistêmica do ChildGuidence Hospital, de Washington: ?Cada vez que nomeamos uma vontade da criança sem um contexto pertinente, estamos criando-lhe uma expectativa a mais e isso é prejudicial a seu desenvolvimento?.

Acredito que a cena do café se repita no cotidiano de muitos pais e famílias e penso como, nos dias de hoje, é difícil ser pai ou mãe eficiente e, ao mesmo tempo, terno. É como se, para ser bom pai, seja necessário dar tudo ao filho e poupar-lhe de todo e qualquer sentimento de privação ou sofrimento.

Colocar simultaneamente uma linguagem de limites para o filho em um contexto de autoridade e amor, sem autoritarismo, pode ser o caminho. Os diálogos firmes e educadores e as palavras amorosas podem coexistir. Se os pais querem dar a seus filhos uma noção benéfica de mundo, ela deve ser, antes de tudo, verdadeira, coerente com o que se quer que a criança aprenda. No mundo não temos tudo aquilo que queremos. Os filhos, por melhores que sejam seus pais, precisam aprender a conquistar as coisas por si, para aprenderem que são capazes de fazer este movimento, para o crescimento da auto-estima, para uma melhor capacidade de tolerar o sofrimento. A mais grave das privações a que podemos submeter um filho pode aparecer justamente quando tentamos interditar-lhe a frustração, na medida em que ela é uma importante condição para se aprender a usar o próprio poder.

Em um contexto no qual a realidade seja vivenciada absolutamente de acordo com o que é possível, é que a coerência pode existir, na educação, nas relações entre pais e filhos, internamente na criança e no adulto de amanhã. É isso o que, verdadeiramente, pode distanciar um filho do sofrimento e torná-lo mais forte.

Eliana Abdalla é psicóloga.

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