Para quem tem trinta anos ou mais, tudo que se conhecia como concorrência no Brasil está acabando. Primeiro, foi a àquela época impensável criação da Ambev (hoje uma potência mundial, após comprar a Interbrew e a Anheuser-Busch), unindo Antarctica e Brahma. Depois, ano passado, a espetacular fusão entre Itaú e Unibanco, criando a maior instituição bancária do hemisfério sul – como o próprio grupo alardeia nos comerciais de TV. Agora, para completar, surge a Brasil Foods, a união entre Perdigão e Sadia, duas gigantes do setor frigorífico, e adversárias ferrenhas desde sempre.
É só lembrar dos comerciais. Enquanto uma empresa atirava para todos os lados com o Chester (Perdigão), a outra fazia a famosa campanha do Peru (Sadia, aquele com o termômetro que indica a hora em que o bicho está pronto). E também a disputa para quem vendia mais presunto, salame, mortadela e, claro, frango congelado. Com a pulverização do mercado, as duas empresas tiveram problemas, e têm como principal atividade a exportação de carne de frango – tanto que a nova Brasil Foods nasce como a grande exportadora do planeta.
Até os últimos anos, a Sadia parecia ser a empresa mais “sadia”, usando um péssimo trocadilho. No final da história, a Perdigão surgiu como a mais preparada para o mundo de hoje. As informações enviadas pela Agência Estado explicam: “Durante a história das rivais, foram várias as tentativas de associação, sem sucesso. A mais emblemática ocorreu em 2006, quando a Sadia apresentou uma oferta hostil à Perdigão. A proposta não só foi negada como serviu de estímulo à Perdigão, cujo valor de mercado mais do que dobrou desde então. Hoje, ela garante a posição de acionista majoritário na tão aguardada gigante de alimentos brasileira, que nasce com faturamento anual de R$ 22 bilhões”.
E o problema principal para todos os consumidores brasileiros é a concentração de poder nas mãos de uma única empresa. A Brasil Foods entra neste jogo com a bola, com o estádio e, mal comparando, com os dois times. Afinal, quem define as regras agora é ela, definindo a política de preços de muitos setores, principalmente do frango congelado e dos derivados. Como ficará a disputa? Ficaremos restritos aos desígnios da nova megaempresa? Espera-se que o governo, um dos grandes interessados com o negócio, esteja atento a esse problema.
E para nós, paranaenses? Há uma preocupação, inerente a todo processo de fusão, aquisição ou incorporação: o risco de corte de empregos. Sobre o assunto, o repórter Hélio Miguel informou, na edição de ontem de O Estado: “A Sadia possui seis unidades no Paraná – Dois Vizinhos, Francisco Beltrão, Paranaguá, Ponta Grossa, Curitiba e Toledo. No total, a empresa possui aproximadamente 16 mil empregados no Estado. A unidade de Toledo, que emprega cerca de 9 mil funcionários, vem efetuando uma série de cortes desde o final do ano passado. De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação do município, só na última semana aconteceram cerca de 300 demissões. Nem a unidade administrativa de Curitiba escapou dos cortes: em março, cerca de 80 funcionários deixaram a empresa”.
E isto em um período que, certamente, era de negociações para a criação da Brasil Foods. Agora, com empresas de mesmo setor, o risco aumenta muito – ainda mais quando se lembra que a Perdigão, controladora da Batavo, colocou mais de mil trabalhadores em férias coletivas entre fevereiro e março, quando o complexo de Carambeí interrompeu parcialmente as atividades.
Por isso, apesar da euforia da criação da megaempresa de exportação de frangos, os paranaenses olham para tudo com cautela. O medo de uma demissão em massa impede que haja comemorações na semana de “fundação” da Brasil Foods.