Os fios do novelo

Se Deus escreve certo por linhas tortas, deve se perguntar por que os políticos, longe de sua imagem e semelhança, cultivam tanto o gosto para expressar de maneira obtusa o pensamento, mesmo que seja para dizer coisas simples. Talvez seja porque o político incorpora com absoluta precisão a paixão humana pela glória, qualidade que, na expressão de Hobbes, explica o ciúme permanente entre poderosos, mantendo-os ?em estado e postura de gladiadores, com as armas apontadas e os olhos fixos uns nos outros?. Respira ele o ar da ambição. Como o milionário que, indagado quanto dinheiro era o bastante para se acalmar, respondia: ?Só um pouquinho mais?. Em se tratando de político brasileiro, então, as curvas no pensamento são mais sinuosas, a denotar que nem a mais apurada hermenêutica é capaz de pinçar a realidade nas entrelinhas das falas de nossos governantes. As falas do presidente Lula são um exemplo. Do verbo incontido, sobressai o desabafo: quero mais, quero mais.

E por que, na peça laudatória, Lula praticamente confessa que, em 2014, deseja voltar ao trono? A resposta exige rápido mergulho na psique lulista. Luiz Inácio, como ele confessa, é exímio leitor da alma brasileira. Nas Caravanas da Cidadania, tirou a carta de pilotagem psicológica, que lhe permite selecionar o discurso para platéias distintas, abusar da emoção, deslizar em cascatas, repetir versões que, depois, tomam o lugar da verdade. Pavlov agradece todos os dias por ver sua teoria dos reflexos condicionados entrando na liturgia de manipulação das multidões e no balizamento da postura presidencial. Como a pessoa que, mudando de casa, esquece o número do telefone antigo, Lula arquiva no inconsciente o PT do passado, posições radicais, a visão exclusivista. Em relação às massas, puxa os cordões dos reflexos inatos que as condicionam – combativo, nutritivo e protetivo – e que lhe permite vestir a armadura do guerreiro, defensor de desamparados e provedor dos famintos. Da galeria dos presidentes contemporâneos, é o que melhor se agasalha no coração das massas.

O calejado Lula das lutas sindicais e das derrotas políticas aprendeu que a consolidação de um projeto de poder carece de ampla teia de acordos. E de muita paciência. Eis a razão pela qual – sem prejuízo de uma reavaliação futura – é crível a intenção de passar o bastão para o candidato eleito sob sua guarida. Deixa transparecer – e essa é a essência do pensamento – que acalenta papel mais extenso na história. Seria ingenuidade postular o terceiro mandato na esteira de um projeto de mudança constitucional. O desgaste borraria a imagem que tenta firmar, a do democrata com diferencial de qualidade comparado ao bombástico Hugo Chávez. O presidente teme a desmontagem da aliança que, a duras custas, conseguiu montar, caso o PT pretenda emplacar o candidato.

A decisão petista em seu 3.º Congresso a respeito da candidatura própria tende a ser inócua. Como inconseqüente seria a decisão partidária sobre Constituinte exclusiva para a reforma política, espaço onde o partido tentaria defender o terceiro mandato continuado. O PT não resistirá ao desejo de Lula de compor a chapa com o perfil de um aliado ou, até, de uma ave de bico grande, como Aécio Neves, governador de Minas, estado que espera a vez de eleger o presidente. É difícil, não impossível. Neves, amigo de Lula, garante que ele e Serra estarão do mesmo lado em 2010. É pura matreirice, herdada do avô. Lembremos a historinha. A um eleitor aflito que o procurou para lhe contar um segredo, Tancredo retrucou: ?Não conte, meu filho; se você, que é dono do segredo, não é capaz de guardá-lo, imagine eu?. Se Aécio tem um segredo, nem a família Neves descobrirá.

O mineiro é mestre na arte de fazer amigos e puxar influências. Mais cosmopolita que José Serra, circula fora de Minas, exerce amplo domínio sobre o segundo maior colégio eleitoral do País, não exibe o azedume de Ciro Gomes e se enquadra bem na moldura de modernidade. Pode entrar no menu de Lula, desde já o maior cabo eleitoral do pleito, cujos primeiros fios começou a puxar do novelo na extensa fala ao estado. Uma coisa fica clara, Luiz Inácio tem fome de poder. A promessa de formar a maior carteira de obras no Brasil, assentada na montanha de R$ 504 bilhões até 2010, ultrapassa o simples desejo de dar adeus ao Planalto para ?fazer um coelhinho assado a los fubangos? no sítio de São Bernardo. Lula diz não ter vocação para ser um ?ditadorzinho?. Não esconde, porém, a vontade de ser um ?presidentão?. Getúlio Vargas, em quem se inspira, passou 15 anos no poder.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.

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