Por determinada intenção religiosa, pelos possíveis “desígnios” de Alá, pela pretensa vontade de Maomé. É possível explicar de forma bastante genérica as razões que transformam seres humanos em extremistas, fanáticos religiosos. O Oriente Médio é cheio deles, cada um com sua doutrina e interpretação do Alcorão, o livro sagrado do Islamismo. Calcado no que dizem ser a palavra do profeta, eles cometem assassinatos, praticam atentados, agem em dissonância com os direitos humanos e preferem o confronto à conversa.
Nos últimos dias, dois fatos envolvendo brasileiros trouxeram de volta à tona a intolerância e a atitude antidemocrática que persiste no Oriente Médio. Primeiro, a brasileira Nariman Osman Chiah, de 21 anos, foi impedida de deixar o Líbano por integrantes do Hezbollah, grupo radical islâmico que cuida da segurança do aeroporto internacional de Beirute. Para eles, Nariman, que nasceu em Paranaguá, tem que se submeter aos desígnios do marido, que a agrediu e ameaçou de morte. Isso não importa, importa é a decisão do marido – amparada pela interpretação das leis e do Alcorão, que indicam que o homem é o centro da família, e a mulher é um simples “complemento”.
Nesta semana, foi a vez da equipe da TV Globo, que fazia matéria em Beirute, ser “seqüestrada” por tropas do Hezbollah e “convidada” a deixar o Líbano imediatamente. A intenção dos guerrilheiros (com a anuência implícita do governo central) era impedir que fossem feitas imagens de uma padaria que vendia sanduíches com nomes de armas. Apressados, os radicais apreenderam as fitas e os cartões de telefone – mas levaram a fita errada, o que permitiu que a reportagem fosse exibida no Jornal Nacional.
Assim como no tempo do arbítrio no Brasil (e como alguns governantes acham que precisa ser), no Líbano e em outros países do Oriente Médio imagina-se que nada pode ser contestado. Para eles, o que vale é a palavra de Maomé, na interpretação que for mais interessante. Como cada um interpreta de um jeito, azar de quem não tem poder ou força armada. Quer dizer, azar da democracia.