A história é implacável. O que para muitos parecia ficção digna do realismo mágico de Gabriel García Márquez, quatro décadas depois, emerge como brutal realidade. E nela a autodeterminação de um povo, a soberania nacional e o direito internacional são esmagados pela intolerância golpista de uma nação estrangeira.
Era tempo de guerra fria. O Brasil buscava extrair vantagens competitivas no conflito bipolar, onde dois impérios buscavam conquistar mentes e corações. Nas eleições presidenciais de 1960, escolheu Jânio Quadros. Poucos meses depois o tresloucado Jânio renuncia à presidência. O vice era, pela segunda vez, o gaúcho João Goulart, que se encontrava em visita à China. A reação militar contra a sua posse quase deflagra uma guerra civil, em agosto de 1961. À época o vice-presidente era eleito em votação direta.
A partir do Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola lança a rede da legalidade defendendo a posse constitucional de Goulart. O III Exército, comandado, pelo general Machado Lopes, se integra à resistência contra os golpistas. O Brasil reage com ampla mobilização popular, incluindo a maioria dos comandos militares. A saída foi adotar o parlamentarismo, assumindo Tancredo Neves a condição de primeiro-ministro. Em janeiro de 1963, os brasileiros em plebiscito sepultam o parlamentarismo de ocasião.
Investido de plenos poderes constitucionais, João Goulart, em um País de 70 milhões de habitantes e com carências sociais de toda ordem, enfrentará agitação assustadora. Lança a tese da urgência das reformas de base objetivando a modernização da economia brasileira. No outro pólo, a resistência a essas reformas mobiliza enorme parcela da sociedade em todos os seus segmentos. Acusavam o governo de querer a implantação de uma república sindicalista.
Recordo que, em meados de março de 1964, o marechal Osvino Ferreira Alves, presidente da Petrobras, a quem prestava serviço na sua assessoria, disse-me que o golpe contra o governo estava em marcha. Ex-comandante do I Exército, sediado no Rio de Janeiro, recebera a informação da inteligência militar daquela unidade. E um dos coordenadores era o embaixador norte-americano Lincoln Gordon.
São passados 43 anos. Eis que o próprio EUA oficializa documentalmente que deu apoio financeiro, militar e político para a deposição de Goulart. O governo norte-americano acaba de tornar público pacote de documentos oriundos da CIA (Agência Central de Inteligência) e do Departamento de Estado detalhando a participação oficial do embaixador Gordon e do general Vernon Walters, adido militar, na conspiração. O próprio presidente Lyndon Johnson, em áudio de seis minutos, da Casa Branca deu o sinal verde para derrubada do governo brasileiro.
Citarei os documentos mais relevantes:
1. Início de março: o embaixador envia à Casa Branca telegrama: ?Nós recomendamos que medidas sejam tomadas o mais brevemente possível para entrega clandestina de armas que não sejam de origem norte-americana para que sejam disponíveis aos partidários de Castelo Branco, em São Paulo. O melhor meio para entrega nos parece ser um submarino sem inscrições, que seria descarregado à noite em locais isolados na costa do Estado de São Paulo, ao sul de Santos, provavelmente perto de Iguape ou Cananéia?.
2. Telegrama de 27 de março: ?O despacho de navios-tanques dos EUA de Aruba. O primeiro deles devendo chegar próximo de Santos, entre 8 e 13 de abril. A seguir mais três navios-tanques, em intervalos de um dia. Despacho imediato de força-tarefa naval para exercícios abertos nas costas do Brasil. A força consiste de um porta-aviões, quatro destróieres, duas escoltas de destróieres, com mísseis guiados. Outros equipamentos leves incluindo gás lacrimogêneo para controle de massas a serem levados por via aérea para São Paulo (Campinas). Envolveria dez aviões de carga e seis caças?.
3. No mesmo dia, outro telegrama: ?Ao contrário de outros grupos golpistas anti-Goulart e que nos procuraram nos últimos dois anos e meio, o movimento Castelo Branco mostra perspectivas de amplo apoio e liderança competente. Dada a predileção brasileira em se juntar à causas vitoriosas, o sucesso inicial poderia ser a chave para atrair para o nosso lado muitas forças indecisas e, portanto, essencial para uma rápida vitória com o mínimo de violência?.
4. Outro comunicado: ?As medidas incluem apoio encoberto para manifestações de rua e incentivo ao sentimento democrático e anticomunista no Congresso, nas Forças Armadas, nos sindicatos amigos, na igreja e entre empresários. Podemos vir a requisitar um modesto fundo suplementar, para outras operações encobertas no futuro?.
O embaixador Lincoln Gordon demonstrava conhecer a alma e o oportunismo de muitos brasileiros. O desembarque do poderio bélico norte-americano não foi necessário. O governo foi derrubado sem resistência. Recorde-se que em 1962, visitando oficialmente os EUA, João Goulart fora levado à chamada sala de guerra do Departamento de Defesa, onde lhe mostraram que tinham condições de intervir em qualquer parte do mundo. Certamente ante esse conhecimento da máquina guerreira norte-americana, preferiu evitar o confronto que significaria um grande banho de sangue brasileiro.
Os documentos oficiais comprobatórios da intervenção do governo norte-americano na vida brasileira estão à disposição dos estudiosos, pesquisadores e a quem interessar possa, na Biblioteca Lyndon Johnson, em Houston, no Texas.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.