Os anéis e os dedos

Luiz Inácio Lula da Silva e Cristina Kirchner, presidentes de Brasil e Argentina, os eternos brigões da América do Sul, ninguém poderá negar, fizeram um esforço muito grande com o envolvimento direto dos experimentados serviços diplomáticos de ambos os países, no sentido de encontrar os caminhos que conduzam as trocas comerciais a um clima de harmonia e equilíbrio. Não tem sido fácil, entretanto, pois até mesmo os respectivos chefes de governo defendem pontos de vista divergentes em algumas questões pontuais. Também é cristalina a constatação que depois de uma década e meia, o acordo do Mercosul quanto à violação das regras da união alfandegária somente conseguiu lograr tímidos avanços.

Enfim, no confronto do comércio bilateral entre empresas brasileiras e argentinas, nossos vizinhos passaram a erguer barreiras de protecionismo para sua produção, sobretudo desde que o setor industrial foi literalmente sucateado pela suposta “relação carnal com os Estados Unidos” propalada em momento de enviesado delírio personalista pelo ex-presidente Carlos Menem. Os resultados altamente prejudiciais não tardaram a aparecer, e seu prolongamento tem nutrido uma infindável discussão em torno de interesses complexos e difusos de empresários brasileiros e argentinos, da qual mais uma rodada começa hoje em Buenos Aires.

A maior preocupação da indústria argentina diz respeito ao acordo automotivo, tendo em vista a forte pressão para que empresários brasileiros aceitem as modificações propostas, com a finalidade de facilitar a captação de investimentos que incentivem a produção de componentes e peças utilizados na montagem de veículos. A Argentina pretende lutar pela alteração das normas de nacionalização de veículos, bem como pela fixação de um percentual de fornecimento para as indústrias locais. O acordo vigente estipula que 60% das peças dos automóveis que circulam pelo território do Mercosul, sem a obrigatoriedade do pagamento das tarifas de importação, devem ser produzidas no bloco, embora não haja nenhuma especificação quanto ao país.

Para a indústria argentina, um bom começo de conversa seria o acolhimento do pleito a ser apresentado no encontro que se inicia hoje na capital portenha, onde se pretende que entre 30% e 40% das peças nacionalizadas sejam fabricadas naquele país. Na agenda do encontro de Buenos Aires um tema passível de conflitos é a adoção de limites para as exportações brasileiras de determinados produtos, segundo comentários informais de um alto funcionário do governo argentino. Um dos alvos preferenciais é o setor da produção de autopeças.

O fulcro da discussão do problema, do ângulo de visão dos nossos vizinhos, é o déficit estrutural de US$ 2,7 bilhões com o setor automotivo brasileiro, acumulado em 2008. A principal razão está no fato de que o comércio de autopeças fabricadas no Brasil é responsável por 62% desse total (US$ 1,7 bilhão). No item veículos a diferença não ficou tão pronunciada, com um déficit de US$ 300 milhões. A tese a ser defendida pelas montadoras e fabricantes de autopeças no Brasil, com o apoio do governo, é contrária a quaisquer modificações nas regras do acordo automotivo, considerando que a última rodada de renegociação foi fechada em junho de 2008 para vigorar até 2013. O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Jackson Schneider, sublinhou que será difícil modificar um acordo feito há poucos meses, lembrando que a melhor opção é “manter esse ritmo de caminhada que está dando certo”.

Empresários confirmam que boa parte das autopeças exportadas para a Argentina acaba voltando para o Brasil, responsável pela absorção de 60% dos veículos montados no país vizinho. Os principais mandatários do Brasil e Argentina fizeram sua parte na definição de normas claras e proveitosas para as parcerias comerciais. Resta saber se os demais atores envolvidos na atividade, os empresários, estão convictos de que muitas vezes é mais prudente ceder os anéis para não ficar sem os dedos.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google