Oráculos do privilégio

Entra ano, sai ano e as sempre repetitivas projeções políticas, econômicas e sociais dos analistas se multiplicam. Os analistas de mercado no ano recém-findo erraram e abusaram do direito de equivocar-se nas suas projeções. O que motivou o jornalista Clóvis Rossi a dissecar esses erros na sua excelente coluna do jornal Folha de S.Paulo, no comentário ?Empulhação, em números?. Demonstra que em relação ao dólar o erro foi de 22,7%; sobre o superávit na balança comercial foi de 66,6%; na previsão sobre o superávit externo o erro foi de 390%. Daí Clóvis Rossi indagar: ?Se erram com tamanha margem em todos os palpites, como confiar em outras análises e conselhos desse pessoal??. E completa: ?Nos acomodamos a meia dúzia de nomes, de pessoas físicas e jurídicas, como os palpiteiros de plantão sobre a economia. Sempre os mesmos?.

O fato objetivo é de que a imprensa e os veículos de informação em geral fizeram dos chamados analistas de mercado os oráculos dos debates sobre economia. Pontificam com arrogância e auto-suficiência na interpretação do pensamento único neoliberal. Por exemplo, nenhuma palavra sobre o fato de o Brasil em 2005 ter gasto cerca de 9% do PIB, perto de 200 bilhões de reais, com o pagamento de juros.

Em nome de um combate selvagem à inflação, justificam a ortodoxia da maior taxa real de juros do mundo. E nisso atendem os interesses de três grupos poderosos e interessados na manutenção dessa situação. O primeiro são aqueles que vivem da excepcional remuneração da taxa de juros. O segundo, o setor financeiro, que ao invés de transferir as suas aplicações para investimento contenta-se em receber comissões dos rentistas pela aplicação dos seus recursos. O terceiro é o apoio dos organismos internacionais e das empresas transnacionais, porque taxa de juros alta representa taxa de câmbio baixa, possibilitando a transferência para as suas matrizes da moeda em que operam.

No ano de 2005 o crescimento econômico da América Latina foi de 4,3%, de acordo com a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina). O Brasil teve um crescimento de 2,5%, ficando ao lado de El Salvador, sendo os que tiveram a menor taxa. A Argentina cresceu 8,6%; o Chile, 6%; a Venezuela, 9%; a República Dominicana, 7%; o Uruguai, 6%. Vale dizer há uma década o Brasil vem registrando uma performance pífia em termos de crescimento. E as perspectivas para 2006 não são animadoras, aventuro-me a afirmar.

Os consultores e analistas de mercado, regiamente remunerados pelo seu trabalho profissional, elegem cenários que quase nunca de viabilizam. Com raras exceções. Os mais notórios palpiteiros são os freqüentadores da mídia televisiva, chegando à exaustão. São sempre os mesmos. E nada acrescentam em termos de apontar alternativas que superem o atual estágio de uma política monetária asfixiante ao crescimento econômico.

É obvio que com a taxa de juro básica no estágio vigente é impossível pensar em investimentos produtivos que recolocariam a economia brasileira no rumo da geração dos empregos que carecemos e de uma efetiva redistribuição de renda.

Não é sem propósito que muitos desses consultores e analistas de mercado integram o ?board? das mais importantes instituições financeiras do Brasil. Acrescendo ao fato de que muitos dos formadores de opinião, alguns colunistas de órgãos de imprensa diária são sempre convidados para proferir palestras com altos ?cachês?, nessas mesmas instituições. Uma maneira sutil de domesticação de qualquer pensamento crítico e realista.

Não se questiona o fato de o Brasil ter se tornado, na última década, o paraíso da agiotagem oficializada. O Estado é o grande devedor e traçou uma estratégia equivocada de remunerar os rentistas com astronômicas taxas de juros. Isso é fato gerador de uma economia desequilibrada do ponto de vista macroeconômico. Não tenho receio em afirmar que a manutenção dessa estratégia ampliará o desastre social. O reflexo direto disso é que a desindustrialização já se enxerga no horizonte. As exportações dos bens manufaturados estão em queda contínua. A principal base das nossas exportações são as commodities (minério, soja, carne, etc.) de baixíssimo valor agregado.

Continuar ouvindo e privilegiando as opiniões dos analistas e consultores de mercado é equívoco mortal. É preciso ouvir e dar vazão à opinião dos empreendedores, dos construtores do progresso, visionários do desenvolvimento, hoje vítimas de uma política monetária e fiscal punitiva. Aí reside o futuro.

Hélio Duque é ex-deputado federal.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google