A Polícia Federal, que alguns críticos garantem estar dividida em duas bandas, a primeira obedecendo rigorosamente os fundamentos de sua existência, e a segunda só pensando em greve, altos salários, prédios suntuosos e inadequados, está tendo um trabalho extra para encontrar nomes específicos para as muitas operações que desencadeou e ainda vai desencadear.
Por esse motivo, mesmo sabendo que estou metendo a colher em rango alheio, tão-somente levado pelo desejo de colaborar com a rapaziada que honra as insígnias da PF, já que não usam fardas, fiz rápida busca no Dicionário da Língua Portuguesa, do mestre Antônio Houaiss, escolhendo aleatoriamente em cada letra uma opção que, talvez, venha a ser considerada pelo núcleo encarregado de pespegar títulos sugestivos nas operações desenvolvidas pelos federais.
Não seria de todo inoportuno adotar a ordem alfabética como acontece nos Estados Unidos e Caribe, onde furacões, tornados e outras quizumbas são batizados com nomes próprios. Como o famoso Katrina que literalmente fez naufragar a rainha do jazz, a cinematográfica New Orleans. Sem mais rodeios, as próximas operações da PF poderiam ser nomeadas com as sugestões que enumero a seguir, fazendo-as acompanhar por breve justificativa. A elas:
Abrolhos – Para quando for necessário encontrar um ponto perdido no oceano a fim de internar os que cobrem de vergonha a mãe gentil.
Bigorrilha – Um termo à altura dos malfeitores que infestam o cenário brasileiro e uma operação que teria enorme amplitude.
Caruncho – Eis aí a melhor terminologia para englobar (encaçapar seria mais indicado?) os inocentes úteis que prestam serviços desinteressados à máfia, roendo pelo lado de dentro.
Dedal – A indefectível operação mensurada na medida exata para trancafiar os rufiões que, entretanto, pululam como num formigueiro.
Embolada – Operação destinada a atestar que esse é o ritmo popular que mais de perto representa a verdadeira intenção de acabar com a safadeza.
Fatiota – Para quando for necessário desenhar e confeccionar as vestes dos presidiários.
Grilhão – O nome diz tudo.
Hiléia – Operação gigante para combater o banditismo que se espraia País afora como interminável floresta.
Inhaca – Para os homens destacados na operação assim nomeada, é necessário prover luvas e máscaras de proteção nasal, porque o odor nauseabundo da matéria que vão manusear se compara aos esgotos do centro da cidade.
Jurubeba – Esta operação completará a anterior, fornecendo aos agentes quantidades industriais de chá duma essência curativa tão brasileira quanto Macunaíma.
Kibutz – Em lugar de presídios de segurança máxima, adotemos o exemplo de Israel, provendo lugares afastados pelo menos mil quilômetros do mais longínquo burgo, onde os dedos leves terão à disposição pás, enxadas e picaretas.
Labrego – Operação destinada a identificar os carregadores dos envelopes contendo mimos para os do andar de cima.
Magarefe – Para trancafiar os encarregados do serviço sujo.
Neófito – Esta será dedicada aos que nunca comeram melado, mas quando o fizeram pela primeira vez acabaram borrando a roupinha de marinheiro confeccionada por mamãe.
Ofidiário – Nesta será difícil entrar. Só os melhores agentes serão destacados, porque lidar com serpentes exige perícia muito acima da média, além de sangue mais frio que as Anacondas.
Pandarecos – Assim deverão ser deixadas as quadrilhas que infestam os bastidores da administração pública brasileira, comprando a consciência de servidores públicos, por exemplo, imantados pela melíflua propaganda da indústria automobilística.
Querela – Afinal, depois de ingentes esforços de policiais exemplares a nação ficará sabendo quem roubou mais: anões do Orçamento, mensaleiros, sanguessugas ou clepto-budistas.
A relação será concluída na próxima semana.
Ivan Schmidt é jornalista.