Operação camufla-buraco

Qualquer iniciativa batizada como ?tapa-buraco? gera desconfianças imediatas em relação ao seu resultado efetivo. Como se a infeliz, porém real, denominação da operação do governo para recuperar as rodovias já não bastasse para o descrédito geral, o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, admitiu a O Estado de S. Paulo que o material que será usado nas obras dura, em média, um ano. ?Teremos de fazer a obra em definitivo depois?, prevê Nascimento, segundo o jornal. O serviço será realizado em seis meses. Metade do tempo que vão durar seus resultados. Isso, provavelmente, é algum tipo de recorde.

Essas informações, oficiais, permitem concluir que em julho de 2007 as estradas estarão novamente esburacadas. Foram liberados R$ 440 milhões para a recuperação de 26,4 mil quilômetros de rodovias. Para justificar a verba pública, o ministro prometeu: ?Nós vamos fazer uma operação para valer. Nos próximos três meses a gente deve ter uma situação bem diferente nas estradas?. Faltou dizer que daqui a 12 meses a situação será a mesma de hoje. Ao custo de quase meio bilhão de reais.

Não é preciso ser especialista para perceber que não se trata de uma iniciativa para recuperar estradas, mas apenas para esconder buracos.

Esconder durante um ano, período suficiente para atender ao calendário de Brasília, mas ínfimo para os interesses nacionais. Até obturação de dente dura mais que os remendos promovidos pelo investimento do governo nas rodovias. Seria cômico não fosse trágico. Trágico sem considerar as mortes causadas pela precariedade das estradas, pois isso é crime, caso de polícia e a intenção aqui é tratar de infra-estrutura.

Os entraves e gargalos para a movimentação de mercadorias são um dos principais obstáculos para o desenvolvimento do País. Essas condições emperram investimentos privados e enterram as chances de o Brasil experimentar um crescimento econômico pleno e sustentável, exatamente no momento em que as exportações continuam fortes, mesmo com o câmbio desfavorável. Os buracos das estradas e falta de alternativa às rodovias encarecem o frete em 30% e o custo total de logística das empresas em 10%. É claro que isso chega ao bolso dos consumidores, além de corroer a competitividade da indústria nacional.

A infra-estrutura precária também impede o desenvolvimento regional. Se existisse fácil acesso aos grandes centros consumidores, certamente as empresas investiriam mais em estados fora do Sudeste. Muitas vezes, por vários motivos, é mais interessante produzir no interior do País. O problema nesse caso é fazer os produtos chegarem aos compradores.

Superado esse obstáculo, certamente ocorreria uma migração de capital que aqueceria economias mais fracas e desafogaria consideravelmente as grandes cidades. Ou seja, bom para todo mundo.

É justo lembrar que essa situação não é de mérito exclusivo deste governo. A questão nunca foi tratada com a devida seriedade no Brasil e, infelizmente, o problema está se agravando. Estudo da consultoria Trevisan revelou que, no final dos anos 90s, 2,5% do PIB nacional era aplicado no desenvolvimento de obras básicas de transporte, o que já era pouco. No período entre 2000 e 2003, o volume de investimentos nesse setor caiu para 1,5% do PIB.

Além de mais dinheiro, também é preciso pensar em infra-estrutura de transportes em um sentido mais amplo. A priorização das rodovias em detrimento de outros meios mostrou-se um erro de planejamento. A movimentação por meio de caminhões sobrecarregou a malha viária e a péssima conservação das estradas encareceu demais o transporte. Porém, as alternativas são escassas, pois as ferrovias continuam relegadas a segundo plano e os rios intransitáveis. Uma intervenção séria na infra-estrutura deve recuperar de verdade as rodovias, além de revitalizar estradas de ferro e hidrovias. Tudo isso simultaneamente à modernização dos portos. E, é claro, com um planejamento para a integração de todos esses meios de transporte. Nada parecido com essa improvisação de tapa-buraco.

Em tempo, segundo o Houaiss, tapa-buraco significa: ?Indivíduo sem função definida que substitui outro temporariamente?. Coincidentemente ou não, uma definição aplicável ao comportamento de muitos ocupantes de cargos públicos no Brasil.

Antônio Wrobleski Filho é presidente da Ryder Logística, graduado em Engenharia Eletrônica pela FEI – Faculdade de Engenharia Industrial, Ph.D. em Finanças pela Fundação Getúlio Vargas e tem MBA pela New York University.

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