Ópera bufa

O ex-presidente Fernando Collor, cassado por falta de decoro e após os anos de afastamento compulsório da política, eleito senador por Alagoas por uma legenda inexpressiva (hoje está no PTB), acabou de ganhar por 13 votos a 10 a presidência da Comissão de Infraestrutura, apoiado pelo presidente da instituição, José Sarney (PMDB-AP) e pelo amigo dileto Renan Calheiros (PMDB-AL), que há pouco tempo também foi constrangido por graves acusações a apear do cargo de presidente do Senado.

Houve avanço ou retrocesso em termos da qualidade esperada dos nossos homens públicos? O leitor, arguto como ele só, sem a menor dúvida, conhece a resposta. Entrementes, não deixa de se mostrar nauseado diante da desfaçatez com que determinadas figuras que tratam a política como se fosse uma capitania hereditária, movem a seu talante as peças de um grande jogo de xadrez.

O senador José Sarney jamais perdeu o lugar na primeira fila do coro, desde o golpe militar de 1964, quando ex-abrupto pulou da antiga “banda de música” da UDN, partido que pregava abertamente o golpe contra as instituições democráticas, para a Aliança Renovadora Nacional (Arena), cujo servilismo frente aos ditados castrenses é uma das páginas mais sórdidas da história recente do País. Apenas para reavivar a memória dos mais jovens sobre o clima que precedeu o golpe, latifundiários, banqueiros e especuladores que botavam banca na UDN, escondiam-se por detrás de um lema tão objetivo quanto sua própria ambigüidade: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”. Deu no que deu.

É fácil perceber que a história política brasileira nos últimos 50 anos, com pequenas variações, sempre girou em torno das mesmas pessoas. O exemplo mais gritante é o senador José Sarney, que apesar do término da primeira década do século XXI, guardadas as proporções, ainda se vale do mesmo vezo autoritário imposto pelos senhores da casa grande, com o fito de controlar os escravos nas senzalas. A obsessão pelo mando dessa autêntica eminência parda de um sistema político que ainda ostenta cacoetes indisfarçáveis da longa submissão ao domínio militar, está mais viva do que nunca.

A eleição de Fernando Collor para a presidência da Comissão de Infraestrutura do Senado é prova inconteste. Sarney e Renan, controladores de quase toda a bancada de senadores do PMDB, uma força nutrida pela influência proporcional sobre as demais bancadas da base governista, distribuíram cartas marcadas com antecedência e o antigo desafeto de ambos, readmitido com pompa e circunstância na confraria dos irmãos espirituais, levou mais essa numa boa.

Collor, que havia estraçalhado Lula, no final da campanha, com o estrépito causado pela revelação da existência da jovem Lurian, uma filha de Lula fora do casamento, teve ainda a seu favor a famosa edição do último debate ordenada pela direção da Rede Globo (leia-se Roberto Marinho). Antes e depois de assumir a presidência, a vítima de Collor passou a ser o próprio José Sarney, invectivado com todas as letras de incompetente e corrupto. Sob os aplausos deslumbrados de Renan Calheiros, então na função de líder do governo na Câmara dos Deputados.

Passados alguns anos, lembrando que Collor adorava proclamar que “o tempo é o senhor da razão”, estão todos juntos no mesmo barco, inclusive Luiz Inácio Lula da Silva, que com a maior versatilidade tratou com visível indiferença a pretensão anunciada pela senadora petista Ideli Salvatti (SC), de tornar-se presidente da Comissão de Infraestrutura. O mesmo havia ocorrido com o senador Tião Viana (PT-AC), abandonado pelo Palácio do Planalto na campanha pela presidência do Senado. A bancada do PTB votou em Sarney em troca duma prebenda valorizada e, destarte, a licença para um mandarinato temporário foi devolvida a Fernando Collor. Uma verdadeira ópera bufa.

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