O petróleo da camada do pré-sal ainda nem começou a jorrar, de fato, mas a conhecida facilidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em produzir frases de efeito já confirmou uma largueza muitas vezes superior às reservas recém-descobertas na bacia de Santos. Quando foi dar início oficial à extração de óleo do pré-sal no campo de Jubarte, no litoral do Espírito Santo, há alguns dias, mesmo sabendo tratar-se apenas duma ação experimental mediante a qual a Petrobras mesma tenciona expandir seu acervo de informações sobre a exploração em profundidades jamais atingidas antes, Lula aproveitou para aumentar sua coleção de declarações gongóricas.
Até a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, a cada dia mais convencida de que a indicação para disputar a sucessão pela coligação (seja qual for) está no papo, deixou-se levar pela euforia característica dos palanques eleitorais e entrou na onda, ao relembrar a importância da luta de Monteiro Lobato em defesa do petróleo brasileiro: “Achamos petróleo atrás do sítio do pica-pau amarelo”, foi a referência oportunista que julgou apropriada para colar às descobertas do pré-sal uma das mais populares criações do legendário escritor.
Na realidade, a Petrobras que é o elo fundamental da corrente é a única que mantém um tom moderado nas previsões sobre o verdadeiro potencial de riqueza armazenada nas profundezas do Atlântico, na longa faixa que se estende desde o Espírito Santo até a costa de Santa Catarina. Isto porque a empresa sabe que precisa investir muito dinheiro nos próximos anos, visando a aquisição de pelo menos 200 plataformas, 40 sondas e mais uma infinidade de equipamentos indispensáveis para o amadurecimento da extração propriamente dita.
Na semana passada, estudo patrocinado pelo banco UBS Pactual assinalava que o custo total de exploração e produção de petróleo na área de pré-sal, somente em relação à bacia de Santos, pode chegar a US$ 1,2 trilhão. O estudo frisava, ainda, para efeito de comparação que todo o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, a soma de todas as riquezas produzidas no País num período de 12 meses, atingiu US$ 1,3 trilhão em 2007. Um analista do banco, Gustavo Gattass, afirmou à Folha de S.Paulo que “hoje ainda é impossível determinar com alguma previsibilidade quanto custará extrair o petróleo que está abaixo da camada de sal”, lembrando a escassez de dados concretos sobre esse tipo de atividade, bem como a determinação do tamanho exato das reservas, a produtividade real dos campos e a infra-estrutura operacional necessária para tornar viável a extração do óleo.
O presidente Lula não parece preocupado com questões desse teor, supondo que o governo está acima de quaisquer críticas ou avaliações derrotistas, especialmente de parte dos “mesmos de sempre” que a seu juízo estão de olho gordo no dinheiro gerado pela inesgotável produção de petróleo. Lula mostrou-se contrafeito com os que vêem temeridade em afirmar que haverá mais recursos para gastar na educação, quando esse dinheiro nem existe. O recado presidencial não poderia ser mais incisivo quando explicitou que 62% dos dividendos de todo o investimento da Petrobras são pagos na Bolsa de Nova York, mas que tal realidade não se repetirá com o pré-sal. Corroborando a impressão veiculada por analistas políticos de que o pré-sal fez sua estréia nos palanques da aliança e significará para Lula o que o Plano Real significou para Fernando Henrique Cardoso, o presidente condenou o ceticismo dos que não acreditam na possibilidade de extrair o óleo localizado a mais de seis mil metros de profundidade.
Com um pragmatismo capaz de suplantar a inexistência de equipamentos sequer licitados pela Petrobras, Lula marcou para março de 2009 o início da extração do petróleo do pré-sal. “Deus mora no Brasil”, supõe o presidente.