Ivan Schmidt

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Depois do escracho que foi a absolvição do senador Renan Calheiros, presidente de poder que de agora em diante está obrigado a instalar exaustores para eliminar o nauseante odor da putrefação moral que exala da instituição, pouco se pode esperar dessa instância legislativa derreada pela subserviência de meia dúzia de bonifrates que assumiu com prazer masoquista a focinheira do voto secreto para vomitar sobre os emblemas da República.

Reconheço a dificuldade de alinhar uma seqüência de frases coerentes com a oceânica decepção que decerto assola também a consciência de milhões de brasileiros nesse momento de pompas fúnebres e, empurrado pela legítima quebra de decoro parlamentar pelo sexteto de rufiões travestidos de senadores que se abstiveram de votar, recorro à lucidez mortificante de H.L. Mencken (1880-1958), jornalista norte-americano que durante 38 anos escreveu uma coluna semanal para o Evening Sun de Baltimore, além de cobrir todas as convenções presidenciais de 1904 a 1948. De resto, levava ao ridículo as arrogantes personalidades da vida pública e empresarial do país.

É lícito afirmar que considero distinção imerecida pelo senador Renan Calheiros, por sua desprezível mediocridade, ser enquadrado nas análises, definições ou críticas de Mencken, apresentado ao leitor brasileiro no início dos anos 90s, com a publicação d?O livro dos insultos (Círculo do Livro, SP), com seleção, tradução e prefácio de Ruy Castro.

Em 1922, Mencken escreveu algo apropriado ao atual contexto brasileiro, sugerindo que ?o homem que se gaba de só dizer a verdade é simplesmente um homem sem nenhum respeito por ela?, até porque ?a verdade não é uma coisa que rola por aí, como dinheiro trocado; é algo para ser acalentado, acumulado e desembolsado apenas quando absolutamente necessário?. O arguto analista que trabalhou e foi demitido de todas as grandes publicações da América lembrou que ?o menor átomo da verdade representa a amarga labuta e agonia de algum homem; para cada pilha dela, há o túmulo de um bravo dono da verdade sobre algumas cinzas solitárias e uma alma fritando no inferno?.

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Pouco depois teve a inspiração de mandar uma mensagem para o futuro, que pousaria como coroa olímpica sobre a fronte daquele que acima de todos os quadrúpedes é o mais frívolo e idiota: ?O homem não consegue se imaginar fora do centro das situações. Nunca abre a boca a não ser para falar de si mesmo. Por mais banal que seja a situação em que se encontre, tenta transformá-la na mais inédita e gloriosa possível. Se, num daqueles sórdidos e obscuros combates contra outros imbecis, ele, por acaso, leva a melhor, estufa o peito de tal jeito que parece a ponto de explodir?.

Não se afirme sem conhecimento de causa que Mencken tivesse desprezo pela democracia. Ao contrário, teve a coragem de proclamar que a adorava, digamos, à sua maneira iconoclasta: ?Ela é incomparavelmente idiota e, por isto, tão divertida. Ela não exalta os parvos, os covardes, os oportunistas, os pilantras e os blefes? Sim, mas a tortura de vê-los subir na vida é compensada pela alegria de vê-los cair do galho?. Quaisquer semelhanças com personagens vivos e encontráveis hoje no Senado da República não é mera coincidência.

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?Nenhum homem acredita piamente em nenhum outro homem?, garantia Mencken, para quem ?no mais alto grau de confiança que ele pode despertar, haverá sempre o aroma da dúvida – uma sensação meio instintiva e meio lógica de que, no fim das contas, o vigarista deve ter um ás escondido na manga?. É digna de encômios sua impressionante capacidade de enxergar fatos concretos onde outros só viam rabiscos: ?Acredito que as mulheres sejam sabiamente menos sentimentais, tanto nisto como em outras coisas. Nenhuma mulher casada põe a mão no fogo por seu marido, mas age como se confiasse nele. Sua principal certeza assemelha-se à de um batedor de carteiras: a de que o guarda que o flagrou poderá ser subornado?.

Aos estafermos senadores que absolveram Renan poderíamos endereçar as seguintes palavras de Mencken, que não insultam e sim enaltecem: ?A capacidade para discernir a verdade essencial, de fato, é tão rara nos homens quanto comum entre os corvos, sapos ou sardinhas. Mas, se a verdade é sempre mal recebida, o erro é recebido de braços abertos?. Acendamos uma vela ao extraordinário escriba.

Ivan Schmidt é jornalista.