Ivan Schmidt
Sempre procurei estar entre os escribas que têm pelos leitores um respeito conspícuo e indiscutível. Não existe facilidade na tarefa de despertar a atenção em meio a um material tão vasto e diversificado quanto são os assuntos publicados nas edições dos nossos diários informativos que mantêm entre si uma concorrência constante, vantajosa para a clientela tradicional e, o que é marketing puro, visando sempre conquistar novos leitores. Por isso, os escribas devem fazer sua parte.
Contento-me com meu quinhão, mas invejo o confrade Célio Heitor Guimarães, que assenta praça aos domingos aqui no Estado, a fim de nos encantar com a leveza profunda de sua competência, volta e meia, aludindo que seu universo deve andar pela casa dos 17 vanguardeiros do prazer dominical. Mestre Heitor: comigo são 18!
O risco é desviar-me do tema que havia escolhido para hoje e perder-me em digressões mais úteis que os aborrecimentos prescritos pelo ofício, vale dizer, as repetitivas metáforas do presidente Lula, a férrea aliança do Ministério da Fazenda e Banco Central na manutenção do arrocho econômico e, ó céus, a hilária versão do presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), sumidade que atende pelo nome de Milton Zuanazzi, negando a existência de crise área no Brasil.
Mantenho o compromisso de não tergiversar e, mais uma vez, sob a indulgente compreensão dos que me levam a sério, recorro a uma superioridade intelectual reconhecida por gregos e goianos, para brindá-los com uma parábola que jamais foi tão veraz, deixando para o fim a revelação da autoria. É assim:
?Durante quase um ano inteiro após a fuga do rei, os extremistas continuaram convencidos de que ele e Odon não haviam saído de Zembla. O erro só pode ser atribuído ao veio de burrice que corre através da mais competente tirania. Os aparelhos aéreos e tudo o que lhes dizia respeito haviam de fato enfeitiçado as mentes de nossos governantes, a quem a bondosa história de repente presenteara com um pacote cheio desses brinquedos ágeis e velozes. Parecia-lhes inconcebível que um fugitivo importante não executasse pelo ar o ato da fuga. Depois que o rei e o ator tinham se despencado pelas escadas dos fundos do Teatro Real, todas as asas no céu e em terra tinham sido postas sob controle – tal era a eficiência do governo. Nas semanas seguintes, nenhum avião particular ou comercial recebeu permissão para decolar, e a inspeção dos passageiros em trânsito tornou-se tão rigorosa e demorada que as empresas internacionais decidiram cancelar as escalas em Onhava. Houve algumas baixas. Um balão escarlate foi entusiasticamente abatido a tiros, e o aeronauta afogou-se no Golfo da Surpresa. Um piloto de uma base na Lapônia, em missão humanitária, perdeu-se no nevoeiro e foi perseguido tão de perto pelos caças de Zembla que terminou seu vôo no topo de uma montanha. Havia uma desculpa para tudo isso. A ilusão da presença do rei nos confins de Zembla foi mantida pelos conspiradores monarquistas, que enganaram regimentos inteiros fazendo-os esquadrinhar montanhas e bosques de nossa acidentada península. O governo esbanjou ridiculamente suas energias na solene identificação das centenas de impostores amontoados nas cadeias do país. A maior parte manteve a farsa até recuperar a liberdade; uns poucos, infelizmente, tombaram. De repente, na primavera do ano seguinte, uma notícia espantosa chegou do exterior: Odon, o ator zemblano, estava dirigindo um filme em Paris!?.
Disse-lhes que se tratava de uma parábola e, como tal, se refere a um reino imaginário que pode ou não ter existido nos Bálcãs. Ante a súbita revelação, os zemblanos da oposição, que se apelidaram de Sombras, conjeturaram que o rei devia ter escapado também e ?a exasperação vingativa, mais do que as razões de Estado, levou a organização secreta da qual Gradus era um membro obscuro a tramar a destruição do fugitivo real. Facínoras desprezíveis! Podem ser comparados a bandidos que anseiam torturar o cavalheiro invulnerável cujo testemunho os jogou na prisão pelo resto de suas vidas?.
Infelizmente não há espaço para contar o resto. Concedo apenas que os trechos entre aspas pertencem ao romance Fogo pálido (Cia. das Letras, 2004), do genial Vladimir Nabokov. O remédio é correr e comprar o livro: nunca antes a ficção esteve tão perto da realidade duma Zembla deitada em berço esplêndido, abençoada pelo Cruzeiro do Sul…
Ivan Schmidt é jornalista.