O sonho dilacerado

A matéria (com absoluta exclusividade) de capa da edição de domingo de O Estado escancara um sério problema para milhares de brasileiros – muitos destes paranaenses. São os dekasseguis, descendentes de japoneses que arriscam tudo por empregos (temporários ou não) no Japão para buscar uma melhora nas condições de vida. Eles estão no olho de um furacão, a crise financeira internacional.

Como acontece em todos os países desenvolvidos, a recessão chegou com tudo ao Japão. O crescimento econômico estancou, os preços estão diminuindo e as empresas veem seus lucros se diluindo aos poucos. Como exemplo claro do corte de gastos que está sendo imposto no país, a montadora Honda teve que rever seus planos no automobilismo, e simplesmente desistiu de disputar o campeonato mundial de Fórmula 1.

E como é também praxe nas economias desenvolvidas, o protecionismo vira arma populista em momentos de crise. Com isso, os imigrantes são os primeiros a sentir na pele o drama do desemprego. Foi exatamente esta realidade a apresentada na matéria da repórter Luciana Cristo: “Os trabalhadores estrangeiros funcionam como um colchão de amortecimento para a economia japonesa. “É um plano do governo a criação de um ‘colchão’ de trabalhadores com regime próprio, diferente do trabalhador japonês, composto por descendentes não só brasileiros, mas também tailandeses e indianos, por exemplo, que funcionam como amortecedor em momentos de crise. Assim, as demissões ocorrem primeiramente nesse colchão, para tentar amenizar o desemprego na sociedade japonesa.”

É uma típica ação populista, que evita maiores transtornos para os japoneses, mas que podem alijar as empresas de bons funcionários. Nesta hora, isto pouco importa, interessa é proteger os locais.

Assim se esvaem um sonho e uma realidade. O sonho é o de firmar carreira em outro país, encontrar o sucesso. A realidade é o dinheiro de cada dia, o que fica no Japão e o que vem para o Brasil. Os dekasseguis desempregados são apenas a ponta de um iceberg de desilusão, que termina por todos os cantos do País.

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