O silêncio dos culpados

O espetáculo do silêncio é sem dúvida a última grande obra do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Quantos espetáculos com estréia marcada, palcos, cenários e efeitos especiais mobilizados, convites distribuídos e convivas de plantão – dublês de claques organizadas – nunca chegaram de fato a acontecer. Do crescimento espetaculoso ao fim da miséria por decreto, em gradações disformes, assistimos ao atual governo frustrar todas as promessas de mudanças estruturais.

A marca indelével da gestão Lula é a corrupção e as negociatas que vieram à tona após os escândalos que exibiram uma galeria de personagens soturnos, que deveriam ser considerados párias da sociedade, figuras execráveis de baixíssimo estofo moral, que foram investidas em funções de Estado.

Não poderia haver desfecho mais lamentável para a administração petista frente ao comando da nação do que o patrocínio fausto de um espetáculo burlesco cujo enredo é baseado na mordaça vil e no silenciar a voz dos depoentes convocados ao plenário das comissões parlamentares de inquérito – CPIs.

O publicitário Duda Mendonça – o mentor da campanha presidencial que conduziu o candidato do Partido dos Trabalhadores ao Palácio do Planalto -, durante o seu último depoimento à CPMI dos Correios, assumiu uma postura que mesclou o deboche e o escárnio, amparado por habeas corpus e por uma banca de advocacia milionária. A postura do mago da propaganda petista diante dos integrantes da comissão caracterizou a usurpação da receita e do remédio jurídico concedido – considerando que este não lhe facultava o direito de se negar a responder às perguntas formuladas de forma sistemática – e nos remeteu a um clima de festim em paraíso fiscal.

Na seqüência silenciosa e obsequiosa que provocou ruídos cívicos que poderão ser mais bem avaliados em futuro próximo, no plenário da CPI dos Bingos travou-se a mais ruidosa batalha entre o direito de buscar a verdade e elucidar fatos graves envolvendo o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e a tentativa de calar e obstruir um depoimento.

Antes de a sessão da CPI dos Bingos ser interrompida por decisão do Supremo Tribunal Federal, os parlamentares ouviram durante uma hora o depoimento do caseiro Francenildo dos Santos Costa. O referido cidadão trabalhou na casa alugada pelos ex-assessores da Prefeitura de Ribeirão Preto, uma espécie de embaixada dos interesses escusos e nada republicanos de uma república nascida na gestão municipal do então prefeito Palocci.

A tentativa de impingir o silêncio à testemunha arrolada, o jovem Francenildo, se revestiu de um alcance muito maior: maculou o parlamento brasileiro, transformando o dia 16 de março numa data enlutada, que a história há de julgar entre os vivos e os mortos.

A estupefação que tomou conta de todo o Senado Federal nos faz recordar o filósofo basco Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, que enfrentou com fibra um dos mais sanguinários adeptos do ditador Francisco Franco, o general fascista José Millán Astray. Numa contenda histórica travada com o referido general franquista, o magnífico reitor Unamuno proferiu uma fala que pode ilustrar o nosso presente contexto político: ?… Estais esperando minhas palavras. Vós me conheceis bem, e sabeis que sou incapaz de permanecer em silêncio. Às vezes, ficar calado equivale a mentir. Porque o silêncio pode ser interpretado como aquiescência?.

A cena e o elenco não são memoráveis, por mais que estejam incorporadas à memória das instituições nacionais. O que se anuncia como a última peça em cartaz pode ser intitulada como o silêncio dos culpados.

Senador Alvaro Dias é vice-presidente nacional do PSDB.

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